A Capital Federal, de Artur Azevedo

Fonte:
AZEVEDO, Artur A capital federal , O badejo , A jia , Amor por anexins. [Estabelecimento de texto: Prof. 
Antonio Martins de Arajo]. Rio de Janeiro:  Ediouro. (Prestgio).

Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de So Paulo
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A Capital Federal
Artur Azevedo
                                     

                                                       Comdia Opereta de
                                                       costumes brasileiros,
                                                     em 3 atos e 12 quadros

                                                                            _________________________
                                                                             A
                                                                Eduardo Garrido
                                                                Mestre e amigo
                                                                                  O.D.C.
                                                                          Arthur Azevedo
                                                              ______________________ 


Personagens e seus criadores

Lola...................................................................................Pepa Ruiz
D. Fortunata......................................................................Cllia Arajo
Benvinda...........................................................................Olmpia Amoedo
Quinota..............................................................................Estefnia Louro
Juquinha............................................................................Adelaide Lacerda
Mercedes...........................................................................Maria Mazza
Dolores.............................................................................Marieta Aliverti
Blanchette.........................................................................Madalena Vallet
Um Literato......................................................................
                                                                                         ]Maria Granada
Uma Senhora....................................................................
Uma Hspede do Grande Hotel da Capital Federal.........Olvia
Eusbio.............................................................................Brando
Figueiredo.........................................................................Cols
Gouveia............................................................................. H.Machado
Loureno...........................................................................Leonardo
Duquinha...........................................................................Zeferino
Rodrigues..........................................................................
                                                                                          ]Portugal
Pinheiro.............................................................................
Um proprietrio................................................................
                                                                                         ]Pinto
Um freqentador do Beldromo......................................
Outro literato...................................................................
                                                                                        ]Lopes
O gerente do Grande Hotel da Capital Federal..............
Sll Vou Plait, amador de bicicleta................................Louro


Mota...............................................................................
                                                                                       ]Azevedo
Lemos............................................................................
Um Convidado..............................................................
                                                                                      ]Oliveira
Guedes..........................................................................
Um ingls.....................................................................Peppo
Um fazendeiro.............................................................Montani
O Chasseur..............................................................N.N.

     Hspedes e criados do Grande Hotel da Capital Federal, vtimas de uma agncia de 
alugar casas, amadores de bicicleta, convidados, pessoas do povo, soldados, etc.

Ao: no Rio de Janeiro, no fim do sculo passado.



                                                                   Ato I

                                                               Quadro  I

(Suntuoso vestbulo do Grande Hotel da Capital Federal. Escadaria ao fundo. Ao levantar 
o pano, a cena est cheia de hspedes de ambos os sexos, com malas nas mos, e criados e 
criadas que vo e vm. O gerente do hotel anda daqui para ali na sua faina.)

- Cena I 
Um Gerente, um Ingls, uma Senhora, um Fazendeiro e um Hspede

                                                               Coro e Coplas
                                                                Os Hspedes
                                       	De esperar estamos fartos
				Ns queremos descansar!
				Sem demora aos nossos quartos
				Faz favor de nos mandar!

                                                                Os Criados
				De esperar estamos fartos!
				Precisamos descansar!
				Um hotel com tantos quartos
				O topete faz suar!

Um Hspede  Um banho quero!
Um Ingls  Aoh! Mim quer come!
Uma Senhora  Um quarto espero!
Um Fazendeiro  Eu estou com fome!

                                			O Gerente
				Um poucochinho de pacincia!
				Servidos todos vo ser, enfim!
				Eu quando falo, fala a gerncia!
				Fiem-se em mim!
					
					   Coro
				Pois pacincia,
				Uma vez que assim quer a gerncia!

					   Coplas
- I 
O Gerente
				Este hotel est na berra!
				Coisa  muito natural!
				Jamais houve nesta terra
				Um hotel assim mais tal!
				Toda a gente, meus senhores,
				Toda a gente, ao v-lo, diz:
				Que os no h superiores
				Na cidade de Paris!
				Que belo hotel excepcional
				O Grande Hotel da Capital
							Federal!

					   Coro
				Que belo hotel excepcional, etc...

- II 
O Gerente
				Nesta casa no  raro
				Protestar algum fregus:
				Acha bom, mas acha caro
				Quando chega o fim do ms.
				Por ser bom precisamente,
				Se o fregus  do bom-tom
				Vai dizendo a toda a gente
				Que isto  caro mas  bom.
				Que belo hotel excepcional!
				O grande Hotel da Capital
							Federal!

					Coro
				Que belo hotel excepcional, etc...

   O Gerente (Aos criados.)  Vamos!Vamos! Aviem-se! Tomem as malas e encaminhem 
estes senhores! Mexam-se! Mexam-se!... ( Vozeria. Os hspedes pedem quarto, banhos, 
etc... Os criados respondem. Tomam as malas, saem todos, uns pela escadaria, outros pela 
direita.) 


- Cena II  
                                                O Gerente, depois, Figueiredo
    O Gerente (S)  No h mos a medir! Pudera! Se nunca houve no Rio de Janeiro um 
Hotel assim! Servio eltrico de primeira ordem! Cozinha esplndida, msica de cmara 
durante as refeies da mesa-redonda! Um relgio pneumtico em cada aposento! Banhos 
frios e quentes, duchas, sala de natao, ginstica e massagem! Grande salo com um 
plafond pintado pelos nossomeiros artistas! Enfim, uma verdadeira novidade!  Antes de 
nos estabelecermos aqui, era uma vergonha! Havia hotis em S. Paulo superiores aos 
melhores do Rio de Janeiro! Mas em boa hora foi organizada a Companhia do Grande 
Hotel da Capital Federal, que dotou essa cidade com um melhoramento to reclamado! E o 
caso  que a empresa est dando timos dividendos e as aes andam por empenhos! 
(Figueiredo aparece no topo da escada e comea a descer.) Ali vem o Figueiredo. Aquele 
 o verdadeiro tipo do carioca: nunca est satisfeito. Aposto que vem fazer alguma 
reclamao.

- Cena III  
O Gerente, Figueiredo

Figueiredo   seu Lopes, olhe que, se isto continuar assim, eu mudo-me!
O Gerente ( parte)  Que dizia eu?
Figueiredo  Esta vida de hotel  intolervel! Eu tinha recomendado ao criado que me 
                       levasse o caf ao quarto s sete horas, e hoje...
O Gerente  O meliante lhe apareceu um pouco mais tarde.
Figueiredo  Pelo contrrio. Faltavam dez minutos para as sete... Voc compreende que 
                      isso no tem lugar.
O Gerente  Pois sim, mas...
Figueiredo  Perdo ;eu pedi o caf para as sete e no para as seis e cinqenta!
O gerente  Hei de providenciar.
Figueiredo  E que idia foi aquela ontem de darem lagostas ao almoo?
O Gerente  Homem, creio que lagosta...
Figueiredo   um bom petisco, no h dvida, mas faz-me mal!
O Gerente  Pois no coma!
Figueiredo  Mas eu no posso ver lagostas sem comer!
O Gerente  No  justo por sua causa privar os demais hspedes.
Figueiredo  Felizmente at agora no sinto nada no estmago...  um milagre! E Sexta-
                      feira passada? Apresentaram-me ao jantar maionese.   Maionese! Quase 
                      atiro com o prato  cara do criado!
O Gerente  Mas comeu!
Figueiredo  Comi, que remdio! Eu posso l ver maionese sem comer? Mas foi uma coisa 
                      extraordinria no ter tido uma indigesto!... 

- Cena IV  
 Os mesmos, Lola

Lola( Entrando arrebatadamente da esquerda.)  Bom dia! (Ao gerente.) Sabe me dizer se 
         o Gouveia est?
O Gerente  O Gouveia?
Lola  Sim, o Gouveia  um cavalheiro que est aqui morando desde a semana passada.
O Gerente ( Indiscretamente)  Ah! O jogador... (Tapando a boca) Oh!... Desculpe!...
Lola  O jogador, sim, pode dizer! Por ventura o jogo  hoje um vcio inconfessvel?
O Gerente  Creio que esse cavalheiro est no seu quarto; pelo menos ainda o no vi 
                      descer.
Lola  Sim, o Gouveia  jogador, e essa  a nica razo que me faz gostar dele.
O Gerente  Ah! A senhora gosta dele?
Lola  Se gosto dele? Gosto, sim, senhor! Gosto, e hei de gostar, pelo menos enquanto der 
            a primeira dzia!
O gerente (Sem entender)  Enquanto der...
Lola -  Ele s aponta nas dzias  ora na primeira, ora na segunda, ora na terceira, 
            conforme o palpite. H perto de um ms que est apontando na primeira.
Figueiredo ( parte.)   um jogador das dzias!
Lola  Enquanto der a primeira, am-lo-ei at o delrio!
Figueiredo  A senhora  franca!
Lola  Fin de sicle, meu caro senhor, fin de sicle.

				     Valsa
			Eu tenho uma grande virtude:
			Sou franca, no posso mentir!
			Comigo somente se ilude
			Quem mesmo se queira iludir!
			Porque quando apanho um sujeito
			Ingnuo, simplrio, babo,
			Necessariamente aproveito,
			Fingindo por ele paixo!

					Engolindo a plula,
					Logo esse imbecil!
					Pe-se a fazer dvidas
					E loucuras mil!
					Quando enfim, o msero
					J nada mais ,
					Eu sem d aplico-lhe
					Rijo pontap!
			
			Eu tenho uma linha traada,
			E juro que no me dou mal...
			Desfruto uma vida folgada
			E evito morrer no hospital.

					Descuidosa,
					Venturosa,
					Com folias
					Sem amar,
					Passo os dias
					A folgar!
	
			S conheo as alegrias,
			Sem tristezas procurar!
			Eu tenho uma grande virtude, etc...

Mas vamos, faa o favor de indicar-me o quarto do Gouveia.

O Gerente  Perdo, mas a senhora no pode l ir.
Lola  Por qu?
O Gerente  Aqui no h disso...
Figueiredo  ( parte)  Toma!
O Gerente  Os nossos hspedes solteiros no podem receber nos quartos senhoras que 
                      no estejam acompanhadas.
Lola  Caracoles! Sou capaz de chamar o Loureno para acompanhar-me.
O Gerente  Quem  o Loureno?
Lola  O meu cocheiro. Ah! Mas que lembrana a minha! Ele no pode abandonar a 
            calea!
O Gerente  O que a senhora deve fazer  esperar no salo. Um belo salo, vai ver, com 
             um plafond pintado pelos nossos primeiros artistas!
Lola  Onde ?
O Gerente (Apontando para a direita.)  Ali.
Lola  Pois esper-lo-ei. Oh! Estes prejuzos! Isto s se v no Rio de Janeiro!... (Vai a sair 
           e lana um olhar brejeiro a Figueiredo.)
Figueiredo  Deixe-se disso, menina! Eu no jogo na primeira dzia! (Lola sai pela 
          direita.)  


- Cena V  
                                                       O Gerente, depois o Chasseur

O Gerente  Oh! Sr. Figueiredo! No se trata assim uma mulher bonita!...
Figueiredo  No ligo importncia a esse povo.
O Gerente  Sim, eu sei...  como a lagosta... Faz-lhe mal, talvez, mas atira-se-lhe que...
Figueiredo  Est engasgado. Essas estrangeiras no tm o menor encanto para mim.
O Gerente  No conheo ningum mais pessimista que o senhor.
Figueiredo  Fale-me de uma trigueira... bem trigueira, bem carregada...
O Gerente  Uma mulata?
Figueiredo  Uma mulata, sim! Eu digo trigueira por ser menos rebarbativo. Isso  que  
                      nosso,  o que vai com o nosso temperamento e o nosso sangue! E quanto 
                      mais dengosa for a mulata, melhor! Ioi, eu posso? Entrar de caixeiro, sair 
                      como scio?... Voc j esteve na Bahia, seu Lopes?
O Gerente  Ainda no. Mas com licena: vou mandar chamar o tal Gouveia. (Chamando.)
                     Chasseur. (Entra da direita um menino fardado.) V ao quarto n 135 e diga 
                     ao hspede que est uma senhora no salo  sua espera. ( O menino sai a 
                     correr pela escada.) 
Figueiredo  Chasseur! Pois no havia uma palavra em portugus para...
O Gerente  No havia, no senhor. Chasseur no tem traduo.
Figueiredo  Ora essa! Chasseur ...
O Gerente   caador, mas chasseur de hotel no tem equivalente. O Grande Hotel da 
                     Capital Federal  o primeiro no Brasil que se d ao luxo de ter um chasseur!  
                     Mas como ia dizendo... a Bahia?...
Figueiredo  Foi l eu tomei predileo pelo gnero. Ah, meu amigo!  preciso conhec-
                      las! Aquilo  que so mulatas! No Rio de Janeiro no as h!
O Gerente  Perdo, mas eu tenho visto algumas que...
Figueiredo  Qual! No me conte histrias.  Ns no temos nada! Mulatas na Bahia!...

					Coplas
					  - I -
				As mulatas da Bahia
				Tm de certo a primazia
				No captulo mulher;
				O sulto l na Turquia
				Se as apanha um belo dia,
				De outro gnero no quer!
				Ai gentes! Que bela,
				A fada amarela
				De trunfa enroscada,
				De manta traada,
				Mimosa chinela
				Levando calada
				Na ponta do p!...

					- II - 
				As formosas georgianas,
				As gentis circassianas
				So as flores dos harns;
				Mas, seu Lopes, tais sultanas,
				Comparadas s baianas,
				No merecem dois vintns!
				Ai! Gentes! Que bela, etc...

     Seu Lopes, voc j viu a Mimi Bilontra?

O Gerente  Isso vi, mas a Mimi Bilontra no  mulata.
Figueiredo  No, no  isso. Na Mimi Bilontra h um tipo que gosta de lanar mulheres. 
                      Voc sabe o que  lanar mulheres? 
Lopes  Sei, sei.
Figueiredo  Pois eu tambm gosto de lan-las. Mas s mulatas! Tenho lanado umas 
               poucas!
Lopes  Deveras?
Figueiredo  Todas as mulatas bonitas que tm aparecido por a arrastando as sedas foram 
               lanadas por mim.  a minha especialidade.
O Gerente  Dou-lhe os meus parabns.
Figueiredo  Que quer? Sou solteiro, aposentado, independente: no tenho que dar 
               satisfaes a ningum. (Outro tom.) Bom: vou dar uma volta antes do jantar. No 
               se esquea de providenciar para que o criado no continue a levar-me o caf s 
               seis e cinqenta!
O Gerente  V descansado. A reclamao  muito justa.
Figueiredo  At logo! (Sai.)
O Gerente (S.)  Gabo-lhe o gosto de lanar mulatas! Imaginem se um tipo assim tem 
               capacidade para apreciar o Grande Hotel da Capital Federal!


- Cena VI 
                                     O Gerente, Lola, depois Gouveia, depois O Gerente

Lola (Entrando.)  Ento? Estou esperando h uma hora!...
O Gerente  Admirou o nosso plafond?
Lola  No admirei nada! O que eu quero  falar ao Gouveia!
O Gerente  J o mandei chamar. (Vendo o Gouveia que desce a escada.) E ele a vem 
                descendo a escada. ( parte.) Pois a esta no se me dava de lan-la. (Sai.)
Gouveia (Que tem descido.)  Que vieste fazer? No te disse que no me procurasses aqui? 
                Este hotel...
Lola  Bem sei: no admite senhoras que no estejam acompanhadas; mas tu no me 
               apareceste ontem nem anteontem, e quando tu no me apareces, dir-se-ia que eu 
               enlouqueo! Como te amo, Gouveia! (Abraa-o.)
Gouveia  Pois sim, Mas no ds escndalo! Olha o chasseur. ( O chasseur tem
               efetivamente descido a escada, desaparecendo por qualquer um dos lados.) 
Lola  Ento? A primeira dzia?
Gouveia  Tem continuado a dar que faz gosto! 5...11...9...5... Ontem saiu o 5 trs vezes 
              seguidas!
Lola  Continuas ento em mar de felicidade?
Gouveia  Uma felicidade brutal!... Tanto assim, que tinha j preparado este envelope para 
               ti...
Lola  Oh! d c! d c!...
Gouveia  Pois sim, mas com uma condio: vai para casa, no estejas aqui.
Lola (Tomando o envelope.)  Oh! Gouveia, como eu te amo! Vais hoje jantar comigo, 
               sim?
Gouveia  Vou, contanto que saia cedo.  preciso aproveitar a sorte! Tenho certeza de que 
                a primeira dzia continuar hoje a dar!
Lola (Com entusiasmo.)  Oh! Meu amor!... (Quer abra-lo.)
Gouveia  No! No!... Olha o gerente!...
Lola  Adeus! (Sai muito satisfeita.)
O Gerente (Que tem entrado,  parte.)  Vai contente! Aquilo  que deu a tal primeira 
                dzia! (Inclinando-se diante de Gouveia.) Doutor...
Gouveia  Quando aqui vier esta senhora, o melhor  dizer-lhe que no estou.  uma boa 
                rapariga, mas muito inconveniente.
O Gerente  Vou transmitir essa ordem ao porteiro, porque eu posso no estar na ocasio.  
               (Sai.)


- Cena VII 

Gouveia (S)   adorvel esta espanhola, isso ... no choro uma boa dzia de contos de 
ris gastos com ela, e que, alis, no me custaram a ganhar... mas tem um defeito:  muito 
colante... Estas ligaes so o diabo... Mas como acabar com isto? Ah! Se a Quinota 
soubesse! Pobre Quinota! Deve estar queixosa de mim... Oh! Os tempos mudaram... 
Quando estive em Minas era um simples caixeiro de cobranas...  verdade que hoje nada 
sou, porque um jogador no  coisa nenhuma... mas ganho dinheiro, sou feliz, muito feliz! 
A Quinota, no final das contas,  uma roceira... mas to bonita! E da, quem sabe?  talvez 
j se tivesse esquecido de mim.


					     - Cena VIII -   
                                                  Gouveia, Pinheiro, depois o Gerente

Pinheiro ( Entrando.)   Oh! Gouveia!
Gouveia  Oh! Pinheiro! Que andas fazendo?
Pinheiro  Venho a mandado do patro falar com um sujeito que mora neste hotel... Mas 
                   que luxo! Como ests abrilhantado! Vejo que as coisas tm te corrido s mil 
                   maravilhas!
Gouveia (Muito seco.)  Sim... deixei de ser caixeiro... Embirrava com isso de ir a qualquer 
                parte a mandado de patro... Atirei-me a umas tantas especulaes ...Tenho 
                arranjado para a uns cobres...
Pinheiro  V-se ... Ests outro, completamente outro!
Gouveia  Devo lembrar-te que nunca me viste sujo.
Pinheiro  Sujo no digo... mas vamos l, j te conheci pau de laranjeira! Por sinal que...
Gouveia  Por sinal que uma vez me emprestaste dez mil-ris. Fazes bem em lembrar-me 
                  essa dvida.
Pinheiro  Eu no te lembrei coisa nenhuma!
Gouveia  Aqui tens vinte mil-ris. Dou-te dez de juros.
Pinheiro  Vejo que tens a esmola fcil, mas  que diabo!  guarda o teu dinheiro e no o 
                  ds a quem to no pede. Fico apenas com os dez mil-ris que te emprestei com
                  muita vontade  e sem juros. Quando precisares deles, vem busc-los. C ficam.
Gouveia  Oh! No hei de precisar, graas a Deus!
Pinheiro  Homem, quem sabe! O mundo d tantas voltas!
Gouveia  Adeus, Pinheiro. (Sai pela esquerda.) 
Pinheiro - Adeus, Gouveia. (S.) Umas tantas especulaes... Bem sei quais so elas... Pois 
                  olha, meu figuro, no te desejo nenhum mal, mas conto que ainda hs de vir 
                  buscar estes dez mil-ris, que ficam de prontido.
O Gerente (Entrando.)  Deseja alguma coisa?
Pinheiro  Sim, senhor, falar a um hspede... Eu sei onde , no se incomode. (Sobe a 
                  escada e desaparece.)
O Gerente (S.)  E l vai sem dar mais cavaco! Esta gente h de custar-lhe habituar-se a 
                  um hotel de primeira ordem como  o Grande Hotel da Capital Federal!


- Cena IX  
                                             O Gerente, Eusbio, Fortunata, Quinota, Benvinda,
                                    Juquinha, Dois Carregadores da Estrada de Ferro com malas, 
                                                    depois o chasseur, Criados e Criadas.
                                     (A famlia traz maletas, trouxas, embrulhos, etc.) 

O Gerente  Ol! Temos hspedes! (Chamando.) Chasseur. V chamar gente! ( O  
                     chasseur aparece e desaparece, e pouco depois volta com alguns criados e 
                     criadas.)
Eusbio  (Entrando  frente da famlia, fechando uma enorme carteira.)  Ave Maria ! 
                 Trinta mil-ris pra nos traz da estao da estrada de ferro at aqui. Esta gente 
                 pensa que dinheiro se cava! (Aperta a mo ao gerente. O resto da famlia imita-
                 o, apertando tambm a mo ao chasseur e  criadagem.) Deus Nosso Sinh 
                 esteje nesta casa!... (Vai pagar aos carregadores, que saem.) 
Fortunata   um caso.
Quinota  Um palcio!
Juquinha  Eu tou com fome! Quero jant!
Benvinda  Espera, nh Juquinha!
Fortunata  Menino, no comea a rein!
O Gerente  Desejam quartos?
Eusbio  Sim sinh!... Mas antes disso deixe diz quem sou.
O Gerente  No  preciso. O seu nome ser escrito no registro dos hspedes. 
Eusbio  Pois sim, sinh, mas oua...

					Coplas-Lundu
					    Eusbio
- I 
Sinh, eu sou fazendeiro
Em So Joo do Sabar,
E venho ao Rio de Janeiro
De coisas graves trat.

	Ora aqui est!

Tarvez leve um ano inteiro
Na Capit Feder!

	     Coro
 	Ora aqui est! etc...



	   Eusbio
- II  
Apareceu um janota
Em So Joo do Sabar;
Pediu a mo de Quinota
E veise embora pra c.

	Ora aqui est!

Hei de ach esse janota
Na Capit Feder!

	      Coro
	Ora aqui est, etc...

Esta  minha mui, Dona Fortunata.

Fortunata  Uma sua serva. (Faz uma mesura.)
O Gerente  Folgo de conhec-la, minha senhora. E esta maa?  sua filha?
Eusbio  Nossa.
Fortunata  Nome dela  Quinota... Joaquina... mas gente chama ela de Quinota.
Quinota  Cala a boca, mame. O senhor no perguntou nada.
Eusbio   muito estruda. Teve trs profess... Este  meu filho... (Procurando 
                 Juquinha.) Onde est ele? Juquinha! (Vai buscar pela mo o filho, que 
                traquinava ao fundo.) T aqui ele. Tem cabea  qu v? Diz um verso, 
                Juquinha!
Juquinha  Ora, papai!
Fortunata  Diz um verso, menino! No ouve teu pai t mandando?
Juquinha  Ora, mame!
Quinota  Diz o verso, Juquinha! Voc parece tolo!...
Juquinha  No digo!
Benvinda  Nh Juquinha, diga aquele de l vem a lua saindo!
Juquinha  Eu no sei verso!
Fortunata  Diz o verso, diabo! (D-lhe um belisco, Juquinha faz grande berreiro.)
Eusbio (Tomando o filho e acariciando-o.)  T bom! chora! no chora! (Ao gerente) T 
                muito cheio de vontade... Ah! Mas eu hei de endireitar ele!
O Gerente  No ser melhor subirem para os seus quartos?
Eusbio  Sim, sinh. (Examinando em volta de si.) O hotelzinho parece bem bo.
O Gerente  O hotelzinho? Um hotel que seria de primeira ordem em qualquer parte do 
                     mundo! O grande Hotel da Capital Federal!
Fortunata  E diz que  s de famlia.
O Gerente  Ah! Por esse lado podem ficar tranqilos.





				          - Cena X - 
                                                   Os mesmos, Figueiredo

   (Figueiredo volta; examina os circunstantes e mostra-se impressionado por Benvinda, 
que repara nele.)

O Gerente (Aos criados.)  Acompanhem estas senhoras e estes senhores... para 
                   escolherem os seus quartos  vontade. (Vai saindo e passa por perto de
                   Figueiredo.)
Figueiredo (Baixinho.)  Que boa mulata, seu Lopes! ( O gerente sai.)
Os Criados e Criadas (Tomando as malas e os embrulhos.)  Faam favor!... Venham!... 
                    Subam!...
Eusbio (Perto da escada.) Suba, Dona Fortunata! Sobe, Quinota! Sobe, Juquinha! (Todos 
                sobem.) Vamo! (Sobe tambm.) Sobe, Benvinda! (Quando Benvinda vai subindo, 
               Figueiredo d-lhe um pequeno belisco no brao.) 
Figueiredo  Adeus, gostosura!
Benvinda  Ah! Seu assanhado! (Sobe.)
O Gerente  (Que entrou e viu.)  Ento, que  isso, Sr. Figueiredo? Olhe que est no 
               Grande Hotel da Capital Federal!
Figueiredo  Ah! Seu Lopes, aquela hei de eu lan-la! (Sobe a escada.) 
O Gerente (S.)  Queira Deus no v arranjar uma carga de pau do fazendeiro! (Sai, 
                    Mutao.) 


                                                            Quadro II
                      (Corredor. Na parede uma mo pintada, apontando para este letreiro: 
                      Agncia de alugar casas. Preo de cada indicao, Rs.5$000, pagos 
                                  adiantados.  Ao fundo um banco, encostado  parede.)

- Cena I  
Vtimas, entrando furiosas da esquerda, depois, Mota, Figueiredo

					        Coro
				Que ladroeira!
				Que maroteira!
				Que bandalheira!
				Pasmado estou!
				Viu toda a gente
				Que o tal agente
				Cinicamente
				Nos enganou!

Mota (Entrando da esquerda tambm muito zangado.)  Cinco mil-ris deitados fora!... 
           Cinco mil-ris roubados!... Mas deixem estar que... (Vai saindo e encontra-se com 
          Figueiredo, que entra da direita.) 
Figueiredo  Que  isto, seu Mota? Vai furioso!
Mota  Se lhe parede que no tenho razo! Esta agncia indica onde h casas vazias por 
             cinco mil-ris.
Figueiredo  Casas por cinco mil-ris? Barata feira!
Mota  Perdo; indica por cinco mil-ris...
Figueiredo (Sorrindo)  Bem sei, e  isso justamente o que aqui me traz. Resolvi deixar o 
                Grande Hotel da Capital Federal e montar casa. Esgotei todos os meios para obter  
                com que naquele suntuoso estabelecimento me levassem o caf ao quarto s sete   
                horas em ponto. Como no estou para me zangar todas as manhs, mudo-me. O 
               diabo  que no acho casa que me sirva. Dizem-me que nesta agncia...
Mota  Volte, seu Figueiredo, volte, se no quer que lhe acontea o mesmo que me 
              sucedeu e tem sucedido a muita gente! Indicaram-me uma casa no morro do Pinto,
              com todas as acomodaes que eu desejava... Voc sabe o que  subir ao morro do 
              Pinto?
Figueiredo  Sei, j l subi uma noite por causa de uma trigueira.
Mota  Pois eu subi ao morro do Pinto e encontrei a casa ocupada.
Figueiredo  Foi justamente o que me aconteceu com a trigueira.
Mota  Volto aqui, fao ver que a indicao de nada me serviu e peo que me restituam os 
             meus ricos cinco mil-ris. Respondem-me que a agncia nada me restitui, porque 
             no tem culpa de que a casa se tivesse alugado.
Figueiredo  E no lhe deram outra indicao?
Mota  Deram. C est. (Tira um papel.)
Figueiredo ( parte.)  Vou aproveit-la!
Mota  Mas provavelmente vale tanto como a outra!
Figueiredo (Depois de ler.)  Oh!
Mota  Que ?
Figueiredo  Esta agora no  m! Rua dos Arcos n 100. Indicaram a casa da Minervina!
Mota  Que Minervina? 
Figueiredo  Uma trigueira.
Mota  A do morro do Pinto?
Figueiredo  No. Outra. Outra que eu lancei h quatro anos. Mudou-se para a Rua dos 
             Arcos no h oito dias.
Mota  Ento? Quando lhe digo!
Figueiredo  As mulatas. Eu digo trigueiras por ser menos rebarbativo... Ainda agora est 
            l no hotel uma famlia de Minas que trouxe consigo uma mucama... Ah, seu 
            Mota...
Mota  Pois atire-se!
Figueiredo  No tenho feito outra coisa, mas no me tem sido possvel encontr-la a jeito. 
            S hoje consegui meter-lhe uma cartinha na mo, pedindo-lhe que v ter comigo ao 
            Largo da Carioca. Quero lan-la!
Mota  Mas vamos embora! Estamos numa caverna!
Figueiredo  E  tudo assim no Rio de Janeiro... No temos nada, nada, nada... Vamos... 


- Cena II 
                                        Os mesmos, Uma Senhora, depois Um proprietrio

A Senhora (Vindo da esquerda.)  Um desaforo! Uma pouca vergonha!
Mota  Foi tambm vtima, minha senhora?
A Senhora  Roubaram-me cinco mil-ris!
Figueiredo  Tambm  justia se lhes faa  eles nunca roubam mais do que isso!
A Senhora  Indicaram-me uma casa... Vou l, e encontro um tipo que me pergunta se 
              quero um quarto mobiliado! Vou queixar-me...
Mota  Ao bispo, minha senhora! Queixemo-nos todos ao bispo!... (O proprietrio entra e  
             vai atravessando a cena da direita para a esquerda, cumprimentando as pessoas 
             presentes.) 
Figueiredo (Embargando-lhe a passagem.)  No v l, no v l, meu caro senhor! Olhe 
             que lhe roubam cinco mil-ris.
O Proprietrio  Nada! Eu no pretendo casa. O que eu quero  alugar a minha.
Os Trs  Ah! (Cercam-no.)
A Senhora  Talvez no seja preciso ir  agncia. Eu procuro uma casa.
Mota  E eu.
Figueiredo  E eu tambm.
A Senhora  A sua onde ?
O Proprietrio  Se querem a indicao, venham cinco mil-ris de cada um!
Os Trs  Hein?
O Proprietrio  Ora essa! Por que  que a agncia h de cobrar e eu no?
Mota  A agncia paga impostos e , apesar dos pesares, um estabelecimento legalmente  
             autorizado.
O Proprietrio  Bem; como eu no sou um estabelecimento legalmente autorizado, dou a 
              indicao por trs mil-ris.
Mota  Guarde-a!
Figueiredo  Dispenso-a!
A Senhora  Aqui tem os trs mil-ris. A necessidade  to grande que me submeto a todas   
               as patifarias!
O Proprietrio (Calmo.)  Patifaria  forte, mas como a senhora paga... (Guarda o  
               dinheiro.)
A Senhora  Vamos!
O Proprietrio  A minha casa  na Praia Formosa.
Mota e Figueiredo  Que horror!
O Proprietrio  Um sobrado com trs janelas de peitoril. Os baixos esto ocupados por 
               um aougue.
Mota e Figueiredo  Xi!
A Senhora  Deve haver muito mosquito!
O Proprietrio  Mosquitos h em toda a parte. Sala, trs quartos, sala de jantar, despensa, 
               cozinha, latrina na cozinha, gua, gs, quintal, tanque de lavar e galinheiro.
A Senhora  No tem banheiro?
O Proprietrio  Ter, se o inquilino o fizer. A casa foi pintada e forrada h dez anos; est 
               muito suja. Aluguel, duzentos e cinqenta mil-ris por ms. Carta de fiana 
               passada por negociante matriculado, trezentos mil-ris de posse e contrato por trs 
               anos. O imposto predial e de pena dgua  pago pelo inquilino.
A Senhora  Com os trs mil-ris que me surrupiou compre uma corda e enforque-se! 
               (Sai.)
Figueiredo (Enquanto ela passa.)  Muito bem respondido, minha senhora!
Mota  Com efeito!
O Proprietrio  Mas os senhores...
Figueiredo (Tirando um apito do bolso.)  Se diz mais uma palavra, apito para chamar a 
              polcia.
O Proprietrio  Ora v se catar! (Vai saindo.)
Figueiredo  Que ? Que ? ... (Segue-o .)
O Proprietrio  Largue-me!
Figueiredo  Este tipo merecia uma lio! (Empurrando-o .) Vamos embora! Deix-lo!
Mota  Vamos!
O Proprietrio (Voltando e avanando para eles.)  Mas eu...
Os Dois  Hein? (Atiram-se ao Proprietrio, que foge, desaparecendo pela esquerda. Mota 
              e Figueiredo encolhem os ombros e saem pela direita, encontrando-se  porta com  
              Eusbio, que entra. O Proprietrio volta e, enganado, d com o guarda-chuva em  
              Eusbio, e foge. Eusbio tira o casaco para persegui-lo.) 


- Cena III  
                                   Eusbio, s; depois, Fortunata, Quinota, Juca, Benvinda 
                                                  
Eusbio  Tratante! Se eu te agarro, tu havia de v o que  purso de mineiro! Que terra 
             esta, Minha Nossa Senhora, que terra esta em que um home apanha sem sab por 
             qu? Mas onde ficou esta gente? Aquela Dona Fortunata no presta para subir 
             escada! (Indo  porta da direita.) Entra!  aqui! (Entra a famlia.) 
Fortunata (Entrando apoiada no brao de Quinota.)  Deixe-me arrespir um bocadinho! 
             Virge Maria! Quanta escada!
Eusbio  E ainda  no outro and! Olhe! (Aponta para o letreiro.)
Juca (Vendo Eusbio a vestir o casaco.)  Mame, papai se despiu!
As Trs   verdade!
Eusbio  Tirei o casaco pra brig! No foi nada.
Fortunata  No posso mais coesta histria de casa!
Quinota   um inferno!
Benvinda  Uma desgraa!
Eusbio  Pacincia. Ns no podemo fic naquele hot... Aquilo  luxo de mais e custa os 
             io da cara! Como temo que fic argum tempo na Capit Feder, o mi  precur 
             uma casa. A gente compra uns traste e alguma loua... Benvinda vai pra cozinha...
Benvinda ( parte.)  Pois sim!
Eusbio  E Quinota trata dos arranjo da casa.
Quinota  Mas a coisa  que no se arranja casa.
Eusbio  Desta vez tenho esperana de arranj. Diz que essa agncia  muito sria. Vamo!
Fortunata  Eu no subo mais escada! Espero aqui no corred.
Eusbio  Tudo fica! Eu vou e vorto (Vai saindo.)
Juca (Chorando e batendo o p.)  Eu quero i com papai! eu quero i com papai!
Fortunata  Pois vai, diabo!...
Eusbio  Vem! vem! No chora! D c a mo! (Sai com o filho pela esquerda.) 
  




 - Cena IV  -
                                                  Fortunata, Quinota e Benvinda

Quinota  Mame, por que no se senta naquele banco?
Fortunata  Ah!  verdade! no tinha arreparado. Estou moda. (Senta-se e fecha os 
               olhos.)
Benvinda  Sinh vai dromi.
Quinota  Deixa.
Benvinda (Em tom confidencial.)   nhanh?
Quinota  Que ?
Benvinda  Nhanh arreparou naquele home que ia descendo pra baixo quando a gente 
               vinha subindo pra cima?
Quinota  No. Que homem?
Benvinda  Aquele que mora l no hot em que a gente mora...
Quinota  Olha mame! (D. Fortunata ressona.) 
Benvinda  J est dromindo. Nhanh arreparou?
Quinota  Reparei,sim.
Benvinda  Sabe o que ele fez hoje de menh? Me meteu esta carta na mo!
Quinota  Uma carta? E tu ficaste com ela? Ah! Benvinda! (Pausa.)  para mim?
Benvinda  Pra quem havera de s?
Quinota  No est sobrescritada.
Benvinda ( parte, enquanto Quinota se certifica de que Fortunata dorme.)  Bem sei que 
              a carta  minha... O que eu quero  que ela leia pra eu ouvi.
Quinota  D c. (Toma a carta e vai abri-la, mas arrepende-se.) Que asneira ia eu 
              fazendo!

 		               		Duetino
                                                           Quinota
Eu gosto do seu Gouveia:
Com ele quero casar;
O meu corao anseia
Pertinho dele pulsar;

	Portanto a epstola
	No posso abrir!
	Srios escrpulos
	Devo sentir!

					Benvinda
Est longe seu Gouveia;
Aqui agora no vem...
Abra a carta, a carta leia...
No digo nada a ningum!

					Quinota 
No! no! a epstola
No posso abrir!
Srios escrpulos
Devo sentir!

Entretanto,  verdade
Que tenho tal ou qual curiosidade,	
Mame  eu tremo!
Dormindo est?

					Benvinda
Sim, e ela memo
Respondeu j. (Fortunata tem ressonado)

					Quinota
 feio,
Mas que importa? Abro e leio! (Abre a carta.) 

					Juntas
	Quinota						Benvinda
Eu sou curiosa!					     bem  curiosa!
No sei me conter!					    No h que diz!
A carta amorosa					    A carta amorosa
Depressa vou ler!					    Depressa vai l...

Ambas  U!...
Quinota (Lendo a carta.)  Minha bela mulata.
Ambas  U!
Quinota (Lendo)  Minha bela mulata. Desde que est morando neste hotel, tenho debalde  
              procurado falar-te. Tu no passas de uma simples mucama... ( D a carta a 
              Benvinda.) A carta  para ti. ( parte.) Fui bem castigada.
Benvinda  Leia pra eu ouvi, nhanh.
Quinota (Lendo.)  Se queres Ter uma posio independente e uma casa tua...
Benvinda  Gentes!
Quinota  ... deixa o hotel e vai ter comigo tera-feira, s quatro horas da tarde, no 
              Largo da Carioca, ao p da charutaria do Machado.
Benvinda ( parte.)  Tera-feira... quatro hora...
Quinota  Nada te faltar. Eu chamo-me Figueiredo.
Benvinda  Rasga essa carta, nhanh! Veja s que sem-vergonha de home!
Quinota (Rasgando a carta.)  Se papai soubesse...
Benvinda ( parte.)  Figueiredo...			

- Cena V  
As mesmas, Eusbio, Juquinha

Eusbio  J tenho uma indicao!
D. Fortunata (Despertando.)  Ah! Quase pego no sono! (Erguendo-se.) J temo casa?
Eusbio  Parece. O dono dela  o home com quem eu briguei indagorinha. Tinha me   
              tomado por outro. Vamo  Praia Fermosa pra v se a casa serve.
D. Fortunata  Ora graa!
Benvinda ( parte.)  Perto da charutaria.
Eusbio ( Que ouviu.)  No sei se  perto da charutaria, mas diz que o log  aprazive; a 
              casa muito boa... Fica pro cima de um aougue, o que qu diz que nunca fartar 
              carne! Vamo!
Quinota   muito longe?
Eusbio  ; mas a gente vai no bonde...
Benvinda ( parte.)  Que Largo da Carioca!  os bondinho da Rua Direita! Vamo!
Juquinha  Eu quero i co Benvinda!
Fortunata  - Vai co Benvinda.  perciso munta pacincia para atur este demnio deste 
              menino! (Saem todos.) 
Benvinda (Saindo por ltimo, com Juquinha pela mo.)  Tera-feira... quatro hora...  
              Figueiredo...

- Cena VI  

O Proprietrio (Vindo da esquerda.)  Queira Deus que o mineiro fique com a casa... mas 
              no lhe dou dois meses para apanhar uma febre palustre! (Sai pela direita.
             Mutao.)


					Quadro III
		             ( O Largo da Carioca. Muitas pessoas esto 
				  espera de bonde. Outras passeiam.)  

- Cena I  
Figueiredo, Rodrigues, Pessoas do Povo

	        Coro
 espera do bonde eltrico
Estamos h meia hora!
To desusada demora
No sabemos explicar!
Talvez haja algum obstculo,
Algum descarrilamento,
Que assim possa o impedimento
Da linha determinar!
	
                  (Figueiredo e Rodrigues vm ao proscnio. Rodrigues est carregado
                                                de pequenos embrulhos.)

Rodrigues  Que estopada, hein?
Figueiredo   tudo assim no Rio de Janeiro! Este servio de bondes  terrivelmente 
              malfeito! No temos nada, nada, absolutamente nada!
Rodrigues  Que diabo! No sejamos to exigentes! Esta companhia no serve mal. No   
              por culpa dela esse atraso. Ali na estao me disseram. Na Rua do Passeio est 
              uma fila de bondes parados diante de um enorme caminho, que levava uma 
              mquina descomunal no sei para onde, e quadrou as rodas.  ter um pouco de 
              pacincia.
Figueiredo  Eu felizmente no estou  espera de bonde, mas de coisa melhor. 
             (Consultando o relgio.) Estamos na hora.
Rodrigues  Ah! Seu magano ... alguma mulher... Voc nunca h de tomar juzo!
Figueiredo  Uma trigueira... uma deliciosa trigueira!
Rodrigues  Continua ento a ser um grande apreciador de mulatas?
Figueiredo  Continuo, mas eu digo trigueiras por ser menos rebarbativo.
Rodrigues  Pois eu c sou o homem da famlia, porque entendo que a famlia  a pedra 
              angular de uma sociedade bem organizada.
Figueiredo  Bonito!
Rodrigues  Reprovo incondicionalmente esse amores escandalosos, que ofendem a moral 
              e os bons costumes.
Figueiredo  Ora no amola! Eu sou solteiro... no tenho que dar satisfaes a ningum.
Rodrigues  Pois eu sou casado, e todos os dias agradeo a Deus a santa esposa e os 
             adorveis filhinhos que me deu! Vivo exclusivamente para a famlia. Veja como 
             vou para casa cheio de embrulhos! E  isto todos os dias! Vo aqui empadinhas, 
             doces, queijo, chocolate, andaluza, sorvetes de viagem, o diabo!... Tudo 
             gulodices!...
Figueiredo (Que preocupado, no lhe tem prestado grande ateno.)  No imagina voc 
             como estou impaciente!  curioso! No varia aos quarenta anos esta sensao 
             esquisita de esperar uma mulher pela primeira vez! Note-se que no tenho certeza 
             de que ela venha, mas sinto uns formigueiros subirem-me pelas pernas! (Vendo 
             Benvinda.) Oh! Diabo! No me engano! Afaste-se, afaste-se, que l vem ela!...
Rodrigues  Seja feliz. Para mim no h nada como a famlia. (Afasta-se e fica 
            observando de longe.)

- Cena II  
                                                     Os mesmos, Benvinda

Benvinda (Aproximando-se com uma pequena trouxa na mo.)  Aqui estou.
Figueiredo (Disfarando o olhar para o cu.) _ Disfara, meu bem. (Pausa.)  Ests 
               pronta a acompanhar-me?
Benvinda (Disfarando e olhando tambm para o cu.)  Sim, sinh, mas eu quero sab se 
                verdade o que o sinh disse na sua carta...
Figueiredo  (Disfarando por ver um conhecido que passa e o cumprimenta.)  Como 
               passam todos l por casa? As senhoras esto boas?
Benvinda (Compreendendo.)  Boas, muito obrigado... Sinh Miloca  que tem andado 
              com enxaqueca.
Figueiredo ( parte.)  Fala mal, mas  inteligente.
Benvinda  O sinh me d memo casa pra mim mor?
Figueiredo  Uma casa muito chique, muito bem mobiliada, e uns vestidos muito bonitos. 
               (Passa outro conhecido. O mesmo jogo de cena.)  Mas por que esta demora com 
               a minha roupa lavada?
Benvinda   porque choveu munto... no se pde cor... (Outro tom.) No me fartar 
               nada?
Figueiredo  Nada! No te faltar nada! Mas aqui no podemos ficar. Passa muita gente 
               conhecida, e eu no quero que me vejam contigo enquanto no tiveres outra 
               encadernao. Acompanha-me e toma o mesmo bonde que eu. (Vai se afastando 
               pela direita e Benvinda tambm.) Espera um pouco, para no darmos na vista. 
              (Passa um conhecido.) Adeus, hein? Lembranas  Baronesa.
Benvinda  Sim, sinh, farei presente. (Figueiredo afasta-se, disfarando e desaparece 
               pela direita. Durante a fala que se segue, Rodrigues a pouco e pouco se aproxima 
              de Benvinda.) Ora! isto sempre deve s mi que aquela vida enjoada l da roa! 
              Ah! seu Borge! Seu Borge! Voc abusou proque era feit l da fazenda; fez o que 
              fez e me prometeu casamento... Mas casar ou no? Sinh e nhanh ontem fic 
              danada... Pois que fique!... Quero a minha liberdade! (Vai afastar-se na direo 
              que tomou Figueiredo e  abordada pelo Rodrigues, que no a tem perdido de 
             vista um momento.) 
Rodrigues  Adeus, mulata!
Benvinda  Viva!
Rodrigues  (Disfarando.)  D-me uma palavrinha?
Benvinda  Agora no posso.
Rodrigues  Olhe, aqui tem o meu carto... Se precisar de um homem srio... de um 
              homem que  todo famlia...
Benvinda (Tomando disfaradamente o carto.)  Pois sim. (Saindo,  parte)  O que no 
              farta  home... Assim queira uma mui... (Sai.)
Rodrigues (Consigo.)  Sim... l de vez em quando... para variar... no quero dizer que... 
              (Outro tom.) E o maldito bonde que no chega! (Afasta-se pela direita e 
               desaparece.)

- Cena III  
                          Lola, Mercedes, Blanchette, Dolores, Gouveia, Pessoas do Povo 
 
                                    (As quatro mulheres entram da esquerda, trazendo 
                                                       Gouveia quase  fora.) 

					Quinteto
				        As mulheres
				Ande pra frente,
				Faa favor!
				Est filado,
				Caro senhor!
				Queria ou no queira,
				Daqui no sai!
				Janta conosco!
				Conosco vai!

			                  Lola
				H tantos dias
				Tu no me vias,
				E agora qurias
				Deixar-me s!
				A tua Lola,
				Meu bem, consola!
				D-me uma esmola!
				De mim tem d!

				    As outras
				H tantos dias
				Tu no a vias,
				E agora qurias
				Deix-lo s!
				A tua Lola,
				Meu bem, consola!
				D-lhe uma esmola!
				Tem d, tem d!

				     Gouveia
 				No me aborream!
				No me enfuream!
				Desapaream!
				Quero estar s!
				Isto me amola!
				Perco esta bola!
				Querida Lola, 
				De mim tem d!

				       Lola
				Ingrato  j no me queres!
				Tu j no gostas de mim!

 				     Gouveia
				So terrveis as mulheres!
				Gosto de ti, gosto, sim!
				Mas no serve este lugar
				Pra tais assuntos tratar!

				    Lola
				Ento daqui saiamos!
				Vamos!

				    Todas
				Vamos!
				H tantos dias, etc...

Lola  - Vamos a saber: por que no tens aparecido?
Gouveia  Tu bem saber por qu.
Lola  A primeira dzia falhou?
Gouveia  Oh! No! Ainda no falhou, graas a Deus, e por isso mesmo  que no a tenho 
abandonado noite e dia! No vs como estou plido? Como tenho as faces 
desbotadas e os olhos encovados?  porque j no durmo,  porque j me no 
alimento,  porque no penso noutra coisa que no seja a roleta!
Lola  Mas  preciso que descanses, que te distraias, que espaireas o esprito. Por isso 
mesmo exijo que venhas jantar hoje comigo, quero dizer, conosco, porque, como 
vs, terei  mesa estas amigas, que tu conheces: a Dolores, a Mercedes e a 
Blanchette.
As Trs  Ento, Gouveia? Venha, venha jantar!...
Gouveia  J deve Ter comeado a primeira banca!
Lola  Deixa l a primeira banca! Tenho um pressentimento de que hoje no d a primeira 
dzia.
Gouveia (Esquivando-se.)  Que  isto? Vocs esto doidas! Reparem que estamos no 
Largo da Carioca!
Lola  Vem! No te faas de rogado!
As Trs (Implorando.)  Gouveia!...
Gouveia  Pois sim, vamos l! Vocs so o diabo!
Lola  Ai! E o meu leque?! Trouxeste-o, Dolores?
Dolores  No.
Blanchette  Nem eu.
Mercedes  Tu deixaste-o ficar sobre a mesa, no Brao de Ouro.
Gouveia  Que foi?
Lola  Um magnfico leque, comprado, no h uma hora, no Palais-Royal! Querem ver que 
o perdi?
Gouveia  Pois sim, faze-me esse favor. (Arrependendo-se.) No! se tu vais  Rua do 
Ouvidor, s capaz de encontrar l algum amigo que leve para o jogo.
Mercedes  E esta  a hora do recrutamento.
Lola  Vamos ns mesmas buscar o leque. Fica tu aqui muito quietinho  nossa espera.  
	um instante.
Gouveia  Pois vo e voltem.
Lola  Vamos! (Sai com as trs amigas.)  


- Cena IV  
                               Gouveia, depois, Eusbio, Fortunata, Quinota e Juquinha	

Gouveia  Com esta no contava eu. Da  quem sabe?  como ando em mar de 
felicidade, talvez seja uma providncia l no ir hoje. (Eusbio entra descuidado 
acompanhado pela famlia, e, ao ver Gouveia, solta um grande grito.)
Eusbio  Oh!seu Gouveia! (Chamando.) Dona Fortunata!... Quinota!... (Cercam 
Gouveia.)
As Senhoras e Juquinha  Oh! seu Gouveia! (Apertam-lhe a mo.)
Eusbio  Seu Gouveia! ( Abraa-o . )
Gouveia (Atrapalhado.)  Sr. Eusbio... Minha senhora... Dona Quinota... ( parte.) 
Maldito encontro!... 	

			                            Quarteto
		                Eusbio, Fortunata, Quinota e Juquinha	

				Seu Gouveia, finalmente,
				Seu Gouveia apareceu!
				Seu Gouveia est presente!
				Seu Gouveia no morreu!

				            Eusbio
				Andei por todas as rua,
				Toda a cidade bati;
				Mas de t notcias sua
				As esperana perdi!

					Quinota
				Mas ao meu anjo da guarda
				Em sonhos dizer ouvi:
				Sossega, que ele no tarda
				A aparecer por a!

Todos  Seu Gouveia, finalmente, etc...
Fortunata  Ora, seu Gouveia! O sinh chegou l na fazenda feito cometa, e comeou a 
namor Quinota. Pediu ela em casamento, veio se embora dizendo que vinha trat 
dos pap, e nunca mais deu sin de si! Isto se faz, seu Gouveia?
Quinota  Mame...
Eusbio  Como Quinota andava apaixonada, coitadinha! Que no comia, nem bebia, nem 
dromia, nem nada, ns arresorvemo vi le procur... porque le escrevi trs carta que 
ficou sem resposta...
Gouveia  No recebi nenhuma.
Eusbio  Ento entreguei a fazenda a seu Borge, que  home em que a gente pode confi, 
	e aqui estemo!
Fortunata  O sinh sabe que com moa de famlia no se brinca... Se seu Eusbio no 
	soub s pai, aqui estou eu que hei de sab s me!
Quinota  Mame, tenha calma... seu Gouveia  um moo srio...
Gouveia  Obrigado, Dona Quinota. Sou, realmente, um moo srio, e hei de justificar 
	plenamente o meu silncio. Espero ser perdoado.
Quinota  Eu h muito tempo lhe perdoei.
Gouveia ( parte.)  Est ainda muito bonita! (Alto) Onde moram?
Eusbio  No Grande Hot da Capit Feder.
Gouveia  ( parte.)  Oh! Diabo! No meu hotel!!... Mas eu nunca os vi!
Quinota Mas andamos  procura de casa: no podemos ficar ali.
Fortunata   muito caro.
Gouveia  Sim, aquilo no convm.
Eusbio  Mas  muito difice ach casa. Uma agncia nos indicou uma, na Praia Fermosa...
Fortunata  Que chiqueiro, seu Gouveia!
Eusbio  Paguemo cinco mil-ris pra nos ench de purga!
Quinota  E era muito longe.
Gouveia  Descansem, h de se arranjar casa. ( parte.)  E a Lola no tarda!
Eusbio  Como diz?
Gouveia  Nada... Mas, ao que vejo, veio toda a famlia?
Eusbio  Toda!  Dona Fortunata... Quinota ... o Juquinha...
Juquinha  A Benvinda.
Eusbio  Ah!  verdade! nos aconteceu uma desgraa!
Fortunata  Uma grande desgraa!
Gouveia  Que foi? Ah! J sei... o senhor foi vtima do conto do vigrio!
Eusbio  Eu?... Ento eu sou argum matuto?... No sinh, no foi isso.
Juquinha  Foi a Benvinda que fugiu.
Quinota  Cale a boca!
Juquinha  Fugiu dum home!
Eusbio  Cala a boca, menino!
Juquinha  Foi Quinota que disse!
Fortunata  Cala a boca, diabo!
Eusbio  O sinh se lembra da Benvinda.
Fortunata  Aquela mulatinha? Cria da fazenda?
Gouveia  Lembra-me.
Eusbio  Hoje de menh, a gente se acorda-se... precura...
Fortunata  Qu d Benvinda?
Gouveia  Pode ser que ainda a encontrem.
Fortunata  Mas em que estado, seu Gouveia!
Eusbio  E seu Borge j esta arresorvido a cas com ela... Mas no fiquemo aqui...
Gouveia (Inquieto.)  Sim, no fiquemos aqui.
Eusbio  Temo muito que convers, seu Gouveia. No quero que Dona Fortunata diga 
que no sei s pai... Quero sab se o sinh est ou no est disposto a cumprir o que 
tratou!
Gouveia  Certamente. Se Dona Quinota ainda gosta de mim...
Quinota ( Baixando os olhos.)  Eu gosto.
Gouveia  Mas vamos! Em caminho conversaremos. So contos largos!
Eusbio  Vamos jant l no hot.
Eusbio  No hotel? No! A linha est interrompida. ( parte.) Era o que faltava! Ela l 
iria! (Alto.) Vamos ao Internacional.
Eusbio  Onde  isso?
Gouveia  Em Santa Teresa. Toma-se aqui o bonde eltrico.
Fortunata  O t que vai pro cima do arco?
Gouveia  Sim, senhora.
Fortunata  Xi!
Gouveia  No h perigo. Mas vamos! Vamos! (D o brao a Quinota.) 
Fortunata  (Querendo separ-los.)  Mas...
Eusbio  Deixe. Isto aqui  moda. A senhora se alembre que no estamo em S. Joo do 
Sabar.
Juquinha  Eu quero i co Quinota!
Fortunata  Principia! Principia! Que menino, minha Nossa Senhora!
Gouveia (Vendo Lola.)  Ela. Vamos! Vamos! (Retira-se precipitadamente.) 
Eusbio  Espere a, seu Gouveia! Ande, Dona Fortunata!
Juquinha (Chorando.)  Eu quero i co Quinota! (Saem todos a correr pela direita.) 


- Cena V  
             Lola, Mercedes, Dolores, Blanchette, Rodrigues, Pessoa do Povo 

Lola  Ento? O Gouveia? No lhes disse? Bem me arrependi de o Ter deixado ficar! No 
	teve mo em si e l se foi para o jogo!
Mercedes  Que tratante!
Dolores  Que malcriado!
Blanchette  Que grosseiro!
Lola  E nada de bondes!
Mercedes  Que fizeste do teu carro?
Lola  Pois no te disse j que o meu cocheiro, o Loureno, amanheceu hoje com uma 
pontinha de dor de cabea?
Blanchette (Maliciosa.)  Poupas muito o teu cocheiro.
Lola  Coitado!  to bom rapaz! (Vendo Rodrigues que se tem aproximado aos poucos.) 
	Ol, como vai voc?
Rodrigues (Disfarando.)  Vou indo, vou indo... Mas que bonito ramilhete franco-
espanhol! A Dolores... a Mercedes... a Blanchette... Viva la gracia!
Lola (s outras.)  Uma idia, uma fantasia: vamos levar este tipo para jantar conosco?
As Outras  Vamos! Vamos!
Blanchette  Substituir o Gouveia! Bravo!
Lola  ( A Rodrigues.)  Voc faz-nos um favor? Venha jantar com ramilhete franco-
	espanhol!!
Rodrigues  Eu?! No posso, filha: tenho a famlia  minha espera.
Lola  Manda-se um portador  casa com esses embrulhos.
Mercedes  os embrulhos ficam, se  coisa que se coma.
Rodrigues  Vocs esto me tentando, seus demnios !
Lola  Vamos! Anda! Um dia no so dias!
Rodrigues  Eu sou um chefe de famlia!
Todas  No faz mal!
Rodrigues  Ora adeus! Vamos! (Olhando para a esquerda.) Ali est um carro. O prprio 
cocheiro levar depois um recado  minha santa esposa... disfarcemos... Vou alugar 
o carro. (Sai.) 
Todas  Vamos! (Acompanham-no.) 
Pessoas do Povo  L vem afinal um bonde! Tomemo-lo! Avana! (Correm todos. Msica 
na orquestra at o fim do ato. Mutao.) 

					Quadro IV
			( A passagem de um bonde eltrico sobre os arcos. Vo dentro do 
	bonde entre outros passageiros, Eusbio, Gouveia, D. Fortunata, Quinota e Ju-
quinha. Ao passar o bonde em frente ao pblico, Eusbio levanta-se entusias -
mado pela beleza do panorama.) 
Eusbio  Oh! A Capit Feder! A Capit Feder!...

    
               			                 PANO
	    
				



                                                       Ato II

	    Quadro V
                                                  O Largo de So Francisco

- Cena I 
                                 Benvinda, Pessoas do Povo, depois Figueiredo 
     (Benvinda est exageradamente vestida  ltima moda e cercada por muitas pessoas do 
povo, que lhe fazem elogios irnicos.)

 						Coro
				Ai, Jesus! Que mulata bonita!
				Como vem to janota e faceira!
				Toda a gente por ela palpita!
				Ningum h que ador-la no queira!
					Ai, mulata!
				No h peito que ao ver-te no bata!
					
						Benvinda
				Vo andando seu caminho,
				Deixe a gente assossegada!

						Coro
				Pra ao menos um instantinho!
				No te mostres irritada!

						Benvinda
				Gentes! Meu Deus! Que maada!

						Coro
				Dize o teu nome, benzinho!

						Coplas
				                      Benvinda
				Meu nome no digo!
				No quero, aqui est!]
				No bulam comigo!
				Me deixem passar!
				Jesus! Quem me acode?
				J vejo que aqui
				As moa no pode
				Sozinha sa!
				    Sai da frente,
				    Minha gente!
				Sai da frente pro fav!
				    Tenho pressa!
				    Vou depressa!
				Vou pra Rua do Ouvid!
			
					Coro
				Sai da frente!
				Minha gente!
			Sai da frente pro fav!
				Vai com pressa!
				Vai depressa!
			Vai  Rua do Ouvidor.

					Benvinda
				No digo o meu nome!
				No tou de mar!
				Diabo dos home
				Que insurta as mui!
				Quando eu vou sozinha,
				S ouo, diz:
				Vem c, mulatinha,
				Que eu vou com voc!
 				   Sai da frente, etc...

					Coro
				   Sai da frente, etc...

     (Figueiredo aparece e coloca-se ao lado de Benvinda.)

					Figueiredo
				Meus senhores, que  isto?
				Perseguio assim  caso nunca visto!...
				Mas saibam que esta fazenda
				Tem um brao que a defenda!

					Benvinda
								Seu Figueiredo
- Eu tava aqui com muito medo!

 Coro
                                                    (  meia voz.)
 								Este  o marchante...
				Deix-los, pois, no mesmo instante!
				Provavelmente o tipo  tolo,
				E h de querer armar um rolo!

          ( toda voz, cumprimentando ironicamente Figueiredo.)
				Feliz mortal, parabns
				Pelo tesouro que tens!
				Ah!ah!ah!ah!ah!ah!ah!ah!
				Mulher mais bela aqui no h!

          (Todos se retiram. Durante as cenas que seguem, at o fim do quadro, passam
                                                          pessoas do povo.)

- Cena II  
                                                             Figueiredo, Benvinda
Figueiredo (Repreensivo.)  J vejo que h de ser muito difcil fazer alguma coisa de ti!
Benvinda  Eu no tenho curpa que esse diabo...
Figueiredo (Atalhando.)  Tens culpa, sim! Em primeiro lugar, essa toalete  escandalosa!
	Esse chapu  descomunal!
Benvinda  Foi o sinh que escolheu ele!
Figueiredo  Escolhi mal! Depois, tu abusas do face-en-main!
Benvinda  Do... do qu?
Figueiredo  Disto, da luneta! Em francs chama-se face-en-main. No  preciso estar a 
	todo o instante... ( Faz o gesto de quem leva aos olhos o face-en-main.) Basta que te 
sirvas disso l uma vez por outra, e assim, olha, assim, com certo ar de sobranceria. 
(Indica.) E no sorrias a todo instante, como uma bailarina... A mulher que sorri 
sem cessar  como o pescador quando atira a rede: os homens vm aos cardumes, 
como ainda agora!  E esse andar? Por que gingas tanto? Por que te remexes assim? 
Benvinda (Chorosa.)  Oh! Meu Deus! Eu ando bem direitinha... no olho pra ningum... 
Estes diabo  que intica comigo.  Vem c, mulatinha! Meu bem, ouve aqui uma 
coisa!  
Figueiredo  Pois no respondas! Vai olhando sempre para a frente! No tires os olhos de 
um ponto fixo, como os acrobatas, que andam na corda bamba... Olha, eu te 
mostro... Faze de conta que eu sou tu e estou passando... Tu  um gaiato e me dizes 
uma gracinha quando eu passar por ti. ( Afasta-se, e passa pela frente de Benvinda
 muito srio.) Vamos, dize alguma coisa!...
Benvinda  Diz o qu?
Figueiredo ( parte.)  No compreendeu! (Alto.) Qualquer coisa! Adeus, meu bem! 
Aonde vai com tanta pressa! Olha o leno caiu!
Benvinda  Ah! Bem!
Figueiredo  Vamos, outra vez. ( Repete o movimento.)
Benvinda  Adeus, seu Figueiredo.
Figueiredo  Que Figueiredo! Eu agora sou Benvinda! E a propsito: hei de arranjar-te um 
	nome de guerra.
Benvinda  De guerra? U!...
Figueiredo  Sim, um nome de guerra.  como se diz. Benvinda  nome de preta velha. 
	Mas no se trata agora disso. Vou passar de novo. No te esqueas de que eu sou tu. 
J compreendeste?
Benvinda  J, sim sinh.
Figueiredo  Ora muito bem!  L vou eu. (Repete o movimento.)
Benvinda (Enquanto ele passa.)  Ouve uma coisa, mulata! Vem c, meu corao!...
Figueiredo (Que tem passado imperturbvel.)  Viste? No se d troco! Arranja-se um 
	olhar de me de famlia! E diante desse olhas, o mais atrevido se desarma!  
Vamos! Anda um bocadinho at ali! Quero ver se aprendeste alguma coisa!
Benvinda  Sim sinh. (Anda.) 
Figueiredo  Que o qu! No  nada disso! No  preciso fazer projees do holofote para 
	todos os lados! Assim, olha... (Anda.) Um movimento gracioso e quase 
imperceptvel dos quadris...
Benvinda (Rindo.)  Que home danado!
Figueiredo   preciso tambm corrigir o teu modo de falar, mas a seu tempo trataremos 
	desse ponto, que  essencial. Por enquanto o melhor que tens a fazer  abrir a boca o 
	menor nmero de vezes possvel, para no dizeres home em vez de homem e 
quejandas parvoces... No h elegncia sem boa prosdia  Aonde ias tu?
Benvinda  Ia na Rua do Ouvid.
Figueiredo (Emendando.)  Ouvidorr... Ouvidorr... No faas economia nos erres, porque 
	apesar da carestia geral, eles no aumentaro de preo. E sibila bem os esses  
	Assim... Bom. Vai e at logo! Mas v l: nada de olhadelas, nada de respostas! Vai!
Benvinda  Int logo.
Figueiredo  Que int logo! At logo  que ! Olha, em vez de int logo, dize: Au revoir! 
	Tem muita graa de vez em quando uma palavra ou uma expresso francesa.
Benvinda   revo!
Figueiredo  Antes isso! (Benvinda afasta-se.) No te mexa tanto, rapariga! Ai! Isso! 
	Agora foi demais! Ai! (Benvinda desaparece.) De quantas tenho lanado, nenhuma 
	me deu tanto trabalho! No pode estar ao p de gente! (Lola vai atravessando a 
cena; vendo Figueiredo encaminha-se para ele.) 

- Cena III  
             Figueiredo, Lola

Lola  Oh! Estimo encontr-lo! Pode dar-me uma palavra?
Figueiredo  Pois no, minha filha!
Lola  No o comprometo?
Figueiredo  De forma alguma! Vossemec j est lanada!
Lola  Como?
Figueiredo  Vossemecs s envergonham a gente antes de lanadas.
Lola  No entendo.
Figueiredo  Nem  preciso entender. Que desejava?
Lola  Lembra-se de mim?
Figueiredo  Perfeitamente. Encontramo-nos um dia no vestbulo do Grande Hotel da 
Capital Federal.
Lola ( Apertando-lhe a mo.)  Nunca mais me esqueci da sua fisionomia. O senhor no  
bonito... oh! no! mas  muito insinuante.
Figueiredo (Modestamente.)  Oh! filha! ...
Lola  lembra-se do motivo que me levava quele hotel?
Figueiredo  Lembra-me. Vossemec ia  procura de um moo que apontava na primeira 
dzia.
Lola  Vejo que tem boa memria. Pois  na sua qualidade de hspede do Grande Hotel da 
Capital Federal que me atrevo a pedir-lhe uma informao.
Figueiredo  Mas eu h muitos dias j l no moro! Era um bom hotel, no nego, mas que 
quer?  No me levavam o caf ao quarto s sete horas em ponto!  Entretanto, se 
for coisa que eu saiba...
Lola Queria apenas que me desse notcias do Gouveia.
Figueiredo  Do Gouveia?
Lola  O tal da primeira dzia.
Figueiredo  Mas eu no o conheo.
Lola  Deveras?
Figueiredo  Nunca o vi mais gordo!
Lola  Que pena! Supus que o conhecesse!
Figueiredo  Pode ser que o conhea de vista, mas no ligo o nome  pessoa.
Lola  Tenho-o procurado inmeras vezes no hotel... e no h meio ! No est! Saiu! H 
trs dias no aparece c! Um inferno!...
Figueiredo  Continua a am-lo?
Lola  Sim, continuo, porque a primeira dzia, pelo menos at a ltima vez que lhe falei, 
	no tinha ainda falhado; mas como no o vejo h muitos dias, receio que a sorte 
afinal se cansasse.
Figueiredo  Ento o seu amor regula-se pelos caprichos da bola da roleta?
Lola   como diz. Ah! Eu c sou franca!
Figueiredo  V-se!

 					Coplas
					   Lola
- I 
Este afeto incandescente
Pela bola se regula
Que vertiginosamente
Na roleta salta e pula!

	Figueiredo
Vossemec o moo estima
Dando a bola de um a doze;
Mas de treze para cima
Ce nest pas la mme chose!

- II 
 Gouveia um bom pateta
Se supe que inda o quisesse
Quando a bola da roleta
A primeira j no desse!

	  Figueiredo
A mulata brasileira
De carinhos  fecunda,
Embora dando a primeira,
Embora dando a segunda!


Lola  E, por outro lado, ando apreensiva...
Figueiredo  Por qu?
Lola  Porqu... O senhor no estranhe estas confidncias por parte de uma mulher que 
	nem ao menos sabe o seu nome.
Figueiredo   Figueiredo...
Lola -    Mas, como j disse, a sua fisionomia  to insinuante... simpatizo muito com o 
	senhor.
Figueiredo  Creia que lhe pago na mesma moeda. Digo-lhe mais: se eu no tivesse a 
	minha especialidade ... ( parte.) Deixem l! Se  o moreno fosse mais carregado...  
Lola  Ando apreensiva porque a Mercedes me contou que h dias viu o Gouveia no teatro 
	com uma famlia que pelos modos parecia gente da roa... e ele conversava muito 
com uma moa que no era nada feia... Tenho eu que ver se o tratante se apanha 
com uma boa bolada arranja casrio e eu fico a chuchar o dedo!
Figueiredo ( parte.)   Ela exprime-se com muita elegncia! 
Lola  Dos homens tudo h que esperar!
Figueiredo   Tudo, principalmente quando d a primeira dzia.
Lola  (Estendendo a mo que ele aperta.)   Adeus, Figueiredo.
Figueiredo  Adeus... Como te chamas?
Lola  Lola.
Figueiredo  Adeus, Lola. 
Lola  (Com uma idia.)   Ah! uma coisa: voc  homem que v a uma festa?
Figueiredo   Conforme.
Lola   Eu fao anos sbado...
Figueiredo   Este agora?
Lola No; o outro.
Figueiredo  Sbado de aleluia?
Lola  Sbado de aleluia, sim. Fao anos e dou um baile  fantasia.
Figueiredo  Bravo! No faltarei!
Lola  Contanto que v fantasiado! Se no vai, no entra!
Figueiredo  Irei fantasiado.
Lola  Aqui tem voc a minha morada. ( D-lhe um carto.) 
Figueiredo   Aceito com muito prazer, mas olhe que no vou sozinho...
Lola  Vai com quem quiseres.
Figueiredo  Levo comigo uma trigueira que estou lanando, e que precisa justamente de 
ocasies como essa para civilizar-se.
Lola  Aquela casa  tua, meu velho! (Vendo Gouveia que entra do outro lado, cabisbaixo, 
	e no repara nela.) Olha quem vem ali!
Figueiredo  Quem?
Lola  Aquele  que  o Gouveia.
Figueiredo  Ah!  aquele?.... Conheo-o de vista...  um moo do comrcio.
Lola  Foi. Hoje no faz outra coisa seno jogar. Mas como est cabisbaixo e pensativo! 
	Querem ver que a primeira dzia...
Figueiredo  Adeus! Deixo-te com ele. At sbado de aleluia!
Lola  No faltes, meu velho! (Apertam-se as mos.) 
Figueiredo ( parte.)  Dir-se-ia que andamos juntos na escola! ( Sai.) 


- Cena IV 
Lola, Gouveia

Gouveia (Descendo cabisbaixo ao proscnio.)  H trs dias d a segunda dzia... 
Consultei hoje a escrita: pedi em noventa e cinco bolas o que tinha ganho em perto 
de mil e duzentas! Decididamente aquele famoso padre do Par tinha razo quando 
dizia que no se deve apontar a roleta nem com o dedo, porque o prprio dedo pode 
l ficar!  
Lola ( parte, do outro lado.)  Fala sozinho!
Gouveia   Hei de achar a forra! O diabo  que fui obrigado a pr as jias no prego. Venho 
	neste instante da casa do judeu.  sempre pelas jias que comea a esbodegao...  
Lola  ( parte.)  Continua... Aquilo  coisa...
Gouveia  Com certeza vo dar por falta dos meus brilhantes... Pobre Quinota! Se ela 
	soubesse! Ela, to simples, to ingnua, to sincera!
Lola  (Aproximando-se inopinadamente)  Tu ests maluco?
Gouveia  Heim?... Eu... Ah! s tu? Como vais?...
Lola  Estavas falando sozinho?
Gouveia  Fazendo uns clculos...
Lola  Aconteceu-te alguma coisa desagradvel? Tu no ests no teu natural!
Gouveia  Sim... aconteceu-me... fui roubado... um gatuno levou as minhas jias... e eu 
	estava aqui planejando deixar hoje a primeira dzia e atacar dois esguichos, o 
esguicho de 7 a 12 e  o esguicho de 25 a 30, a dobrar, a dobrar!
Lola  (Num mpeto.)  A primeira dzia falhou?
Gouveia  Falhou... ( A gesto de Lola.) Mas descansa: eu j a tinha abandonado antes que 
	ela me abandonasse.
Lola  Tens ento continuado a ganhar?
Gouveia  Escandalosamente!
Lola  Ainda bem, porque sbado de aleluia fao anos...
Gouveia   verdade... fazes anos no sbado de aleluia... 
Lola   preciso gastas muito dinheiro! Tenho te procurado um milho de vezes! No hotel 
	dizem-me que l nem apareces! 
Gouveia  Exagerao.
Lola  E outra coisa: quem era uma famlia com quem estavas uma noite destas no S. 
	Pedro? Uma famlia da roa?
Gouveia  Quem te disse?
Lola Disseram-me. Que gente  essa?
Gouveia  Uma famlia muito respeitvel que eu conheci quando andei por Minas.
Lola  Gouveia, Gouveia, tu enganas-me!
Gouveia   Eu? Oh! Lola! Nunca te autorizei a duvidares de mim!...
Lola  Nessa famlia h uma moa que... Oh! o meu corao adivinha uma desgraa, e ... 
	(Desata a chorar.) 
Gouveia (  parte.)   preciso, realmente, que ela me ame muito, para ter um 
pressentimento assim! (Alto.) Ento? Que  isso? No chores! V que estamos na 
rua!...  
Lola  ( parte.)  Pedao dasno! 
Gouveia   Eu irei logo l  casa, e conversaremos.
Lola  No! no te deixo! Hs de ir agora comigo, hs de acompanhar-me, seno 
	desapareces como aquela vez, no Largo da Carioca!
Gouveia  Mas...
Lola  Ou tu me acompanhas, ou dou um escndalo!
Gouveia   Bom, bom, vamos. Tens a o carro?
Lola  No, que o Loureno, coitado, foi passar uns dias em Caxambu. Vamos a p. Bem 
sei que tu tens vergonha de andar comigo em pblico, mas isso so luxos que deves 
perder!
Gouveia   Vamos! ( parte.) Hei de achar meio de escapulir...
Lola  Vamos ( parte.) Ou eu me engano, ou est liquidado! (Afastam-se. Entram pelo 
	outro lado Eusbio, Fortunata e Quinota, que os vem sem serem vistos por eles.) 


	
- Cena V 
  				    Eusbio, Fortunata, Quinota

Fortunata  Olhe. L vai!  ele!  seu Gouveia com a mesma espanhola com quem estava 
aquela noite no jardim do Recreio! ( Correndo a gritar.)  Seu Gouveia! Seu 
Gouveia!...
Eusbio (Agarrando-a pela saia.)   senhora! No faa escndalo! Que maluquice de 
	mui!...
Quinota (Abraando o pai, chorosa.)  Papai, eu sou muito infeliz!
Eusbio  Aqui est!  o que a senhora queria!]
Fortunata  Aquilo  um desaforo que eu no posso admiti! O diabo do home  noivo de 
	nossa filha e anda por toda a parte cuma pilantra!
Eusbio  Que pelintra, que nada!... No acredita, fia da minha bena.  uma prima dele. 
Coitadinha! Chorando! (Beija-lhe os olhos.) 
Quinota  Eu gosto tanto daquele ingrato!
Eusbio  Ele tambm gosta de ti... e h de cas contigo... e h de s um bom marido!
Fortunata (Puxando Eusbio de lado.)   perciso que voc tome uma porvidncia 
	quaqu, seu Eusbio  seno, fao uma estralada!...
Eusbio(Baixo.)  Descanse... Eu j tomei informao... J sei onde mora essas espanhola... 
	Agora mesmo vou procur ela. V as duas. V para casa! Eu j vou.
Fortunata  E Juquinha? Por onde anda aquele menino?
Eusbio  Deixe, que o pequeno no se perde... Est l no tal Beldromo, aprendendo a 
	and naquela coisa... Cumo chama?
Quinota  Bicicleta.
Eusbio  .  Diz que  bom pra desenvorv os msquios!
Fortunata  Desenvorv a vadiao,  que !
Quinota  Ele  to criana!
Eusbio  Deixa o menino se adiverti.  Vo pra casa.
Quinota  L vamos para aquele forno!
Eusbio  Tem pacincia, Quinota! Enquanto no se arranja coisa mi, a gente deve se 
	content caquele sote.
Fortunata  Vamo, Quinota!
Quinota  No se demore, papai!
Eusbio  No.
Fortunata (Saindo.)  Eu t mas  doida pra me apanh na fazenda! ( Eusbio leva ase 
	senhoras at o bastidor e, voltando-se, v pelas costas Benvinda.) 


- Cena VI  
Eusbio, Benvinda

Benvinda (Consigo.)  Parece que assim o meu and t direito... 
Eusbio (Consigo.)  Xi que tentao! (Seguindo Benvinda.) Psiu!...  Dona... Dona!... 
Benvinda  ( parte.)  Esta voz... (Volta-se.) Sinh Eusbio!
Eusbio  Benvinda!...
Benvinda (Assentando o face-en-main.)   revo. 
Eusbio   A mulata de luneta, minha Nossa Senhora! Este mundo t perdido!...
Benvinda ( Dando-se ares e sibilando os esses.)  Deseja alguma coisa? Estou as suas 
	ordes! 
Eusbio  Ah! ah! ah! que mulata pernstica! Quem havia de diz! Vem c, diabo, vem c; 
	me conta tua vida! 
Benvinda (Mudando de tom.)  Vamc no t zangado comigo? 
Eusbio   Eu no! Tu era senhora do teu nariz! O que tu podia t feito era se despedi da 
	gente... Dona Fortunata no te perdoa! E seu Borge, quando soub, h de fic 
	danado, porque ele gosta de ti.
Benvinda  Se ele gostasse de mim, tinha se casado comigo.
Eusbio  Ele um dia me deu a entend que se eu te desse um dote...
Benvinda  Vamcs ainda mora no hot?
Eusbio  No. Ns mudemo para um sote da Rua dos Invlido. Paguemo sessenta mil-
ris.
Benvinda  Seu Gouveia j apareceu?
Eusbio  Apareceu e tudo t combinado... ( parte.) O diabo  a espanhola!
Benvinda  Sinh? nhnh? nh Juquinha? tudo t bom? 
Eusbio  Tudo! Tudo t bom!
Benvinda  Nh Juquinha eu vejo ele s vez pass na Rua do Lavradio... com outros 
	menino...
Eusbio  T aprendendo a and no... n... nesses carro de duas roda, uma atrs  outra 
	adiante, que a gente trepa em cima e tem um nome esquisito... 
Benvinda  Eu sei.
Eusbio  E tu, mulata?
Benvinda  Eu t com seu Figueiredo.
Eusbio  Sei l quem  seu Figueiredo.
Benvinda  Tou morando na Rua do Lavradio, canto da Rua da Relao. (Assentando o 
face-en-main.) Se quis aparec no faa cerimnia. ( Sai requebrando-se.)  
revo!
Eusbio  A, mulata!


- Cena VII 
                                                       Eusbio, depois Juquinha

Eusbio  O curpado fui eu... Quando me alembro que seu Borge queria cas com ela... 
	bastava um dote, quaqu coisa... dois ou trs conto de ris... mas deixa est: ele no 
	sabe de nada, e tarvez que a coisa ainda se arranje. Quem no sabe  como quem 
	no v. (Vendo passar Juquinha montado numa bicicleta.) Eh! Juquinha... Menino, 
	vem c!
Juquinha  Agora no posso, no, sinh! (Desaparece.) 
Eusbio  Ah! menino! Espera l! (Corre atrs do Juquinha. Gargalhada dos 
circunstantes. Mutao.) 


					Quadro VI
				  Saleta em casa de Lola

- Cena I  
Lola e Gouveia

	(Lola entra furiosa. Traz vestida uma elegante bata. Gouveia acompanha-a
                                                    vem vestido de Mefistfeles.)

Lola  No! isto no se faz! E o senhor escolheu o dia dos meus anos para me fazer essa 
	revelao! Devia esperar pelo menos que acabasse o baile! Com que mau humor 
vou agora receber os meus convidados! (Caindo numa cadeira.) Oh! os meus 
pressentimentos no me enganavam!... 
Gouveia -  Esse casamento  inevitvel; quando estive em S. Joo do Sabar, comprometi-
me com a famlia de minha noiva e no posso faltar  minha palavra!
Lola  Mas por que no me disse nada? Por que no foi franco?
Gouveia -   Supus que essa dvida tivesse cado em exerccios findos; mas a pequena teve 
saudades minhas, e tanto fez, tanto chorou, que o pai se viu obrigado a vir procurar-
me! Como vs,  uma coisa sria!
Lola  Mas o senhor no pode procurar um subterfgio qualquer para evitar esse 
	casamento? Que idia  essa de se casar agora que est bem, que tem sido feliz no 
jogo? E eu? Que papel represento eu em tudo isto?
Gouveia (Puxando uma cadeira.)  Lola, vou ser franco, vou dizer-te toda a verdade. 
(Senta-se.) H muito tempo no fao outra coisa seno perder... O outro dia tive 
uma aragem passageira, um sopro de fortuna, que serviu apenas para pagar as 
despesas da tua festa de hoje e mandar fazer esta roupa de Mefistfeles! Estou 
completamente perdido! As minha jias no foram roubadas, como eu te disse. 
Deitei-as no prego e vendi as cautelas. Para fazer dinheiro, eu, que aqui vs coberto 
de seda, tenho vendido at a roupa do meu uso... nessas casas de jogo j no tenho a 
quem pedir dinheiro emprestado. Os banqueiros olham-me por cima dos ombros, 
porque eu tornei-me um piaba... Sabes o que  uma piaba?  um sujeito que vai 
jogar com muito pouco bago. Estou completamente perdido!   
Lola (Erguendo-se.)  Bom. Prefiro essa franqueza.  muito mais razovel.
Gouveia  (Erguendo-se.)  Esse casamento  a minha salvao; eu...   
Lola  No precisa dizer mais nada. Agora sou eu a primeira a aconselhar-te que te cases, e 
	quanto antes melhor...
Gouveia -  Mas, minha boa Lola, eu sei que com isso vais padecer bastante, e...  
Lola  Eu? Ah! ah! ah! ah!... S esta me faria rir!... Ah! ah! ah! ah!... Sempre me 
saste um grande tolo! Pois entrou-te na cabea que eu algum dia quisesse de ti outra 
coisa que no fosse o teu dinheiro?
Gouveia (Horrorizado.)  Oh!   
Lola  E realmente supunhas que eu te tivesse amor?
Gouveia ( Caindo em si.)  Compreendo e agradeo o teu sacrifcio, minha boa Lola. Tu 
ests a fingir uma perversidade e um cinismo que no tens, para que eu saia desta 
casa sem  remorsos! Tu s a Madalena, de Pinheiro Chagas!   
Lola  E tu s um asno!  O que te estou dizendo  sincero! Estava eu bem aviada se me 
	apaixonasse por quem quer que fosse!
Gouveia -   Dar-se- caso que te sassem do corao todos aqueles horrores?
Lola  Do corao? Sei l o que isso . O que afiano  que sou to sincera, que me 
comprometo a amar-te ainda com mais veemncia que da primeira vez no dia em 
que resolveres dar cabo do dote da tua futura esposa! 
Gouveia (Com uma exploso.)  Cala-te, vbora danada! Olha que nem o jogo, nem os teus 
beijos me tiraram totalmente o brio! Eu posso fazer-te pagar bem caro os teus 
insultos!   
Lola  Ora, vai te catar! Se julgas amedrontar-me com esses ares de gal de dramalho, 
enganas-te redondamente! Depois, repara que ests vestido de Mefistfeles! Esse 
traje prejudica os teus efeitos dramticos! Vai, vai ter com a tua roceira. Casem-se, 
sejam muito felizes, tenham muitos Gouveiazinhos, e no me amoles mais! 
(Gouveia avana, quer dizer alguma coisa, mas no acha uma palavra. Encolhe os 
ombros e sai. )
 
 

- Cena II  
       Lola, depois Loureno

Lola (S.)  Faltou-lhe uma frase, para o final da cena  coitado! A respeito de imaginao, 
este pobre rapaz foi sempre uma lstima!  os homens no compreendem que o seu 
nico atrativo  o dinheiro! Este pasccio devia ser o primeiro a fazer uma retirada 
em regra, e no se sujeitar a tais sensaborias! Bastavam quatro linhas pelo correio.  
Oh! tambm a mim, quando eu ficar velha e feia, ningum me h de querer! Os 
homens tm o dinheiro, ns temos a beleza; sem aquele e sem esta, nem eles nem 
ns valemos coisa nenhuma. ( Entra Loureno trajando uma libr de cocheiro. Vem 
a rir-se.) 
Loureno  Que foi aquilo? 
Lola -  Aquilo o qu?
Loureno  O Gouveia! Veio zunindo pela escada abaixo e, no saguo, quando eu me 
curvei respeitosamente diante dele, mandou-me ao diabo, e foi pela rua fora, a p, 
vestido de Satans de mgica! Ah! ah! ah!
Lola  Daquele estou livre!
Loureno  Eu no dizia a voc? Aquilo  bananeira que j deu cacho!
Lola  Que vieste fazer aqui? No te disse que ficasses l embaixo?
Loureno  Disse, sim, mas  que est a um matuto, pelos modos fazendeiro, que deseja 
	falar a voc.
Lola  A ocasio  imprpria. So quase horas, ainda tenho que me vestir!
Loureno  Coitado! O pobre-diabo j aqui veio um ror de vezes a semana passada, e 
parece ter muito interesse nesta visita. Demais... voc bem sabe que nunca se manda 
embora um fazendeiro.
Lola  Que horas so?
Loureno  Oito e meia. J esto na sala alguns convidados.
Lola  Bem! Num quarto de hora eu despacho esse matuto. Faze-o entrar.
Loureno   j. (Sai assoviando.) 
Lola  (S.)  Como anda agora lpido o Loureno! Voltou de Caxambu que nem parece o 
	mesmo!  Ele tem razo: um fazendeiro nunca se manda embora.
Loureno (Introduzindo Eusbio muito corretamente.)  Tenha V. Exa. a bondade de 
entrar. (Eusbio entra muito encafifado e Loureno sai fechando a porta.) 


				      -  Cena III - 
				     Lola, Eusbio
Eusbio  Boa nte, madama! Deus esteja nesta casa! 
Lola   Faz favor de entrar, sentar-se e dizer o que deseja. (Oferece-lhe uma cadeira. 
	Sentam-se ambos.)
Eusbio  Na sumana passada eu precurei a madama um bando de vez sem conseguir le 
	fal...
Lola  E por que no veio esta semana?  
Eusbio  Dona Fortunata no quis, por s sumana santa... Eu ento esperei que rompesse 
as aleluia! (Uma pausa.)  Eu pensei que a madama embrulhasse lngua comigo, e 
eu no entendesse nada que a madama dissesse, mas t vendo que fala muito bem o 
portugus...
Lola  Eu sou espanhola e... o senhor sabe... o espanhol parece-se muito com o portugus; 
	por exemplo: hombre, homem; mujer, mulher.
Eusbio (Mostrando o chapu que tem na mo.)  E como  chapu, madama? 
Lola  Sombrero.
Eusbio  E guarda-chuva?
Lola Paraguas.
Eusbio  ! Parece quase a mesma coisa!  E cadeira?
Lola  Silla.
Eusbio  E janela?
Lola  Ventana.
Eusbio  Muito parecida!
Lola  Mas, perdo, creio que no foi para aprender espanhol que o senhor veio  minha 
casa...
Eusbio  No, madama, no foi para aprend  espanhol: foi para trat de coisa munto 
	sria! 
Lola  De coisa sria? Comigo!  esquisito!...
Eusbio  No  esquisito, no madama; eu sou o pai da noiva de seu Gouveia!...
Lola  Ah!
Eusbio  Cumo minha fia anda munto desgostosa pru via da madama, eu me alembrei de 
vi na sua casa para sab... sim, para sab se  possive a madama se separ de seu 
Gouveia. Se f possive, munto que bem; se no f, pacincia: a gente arruma as 
mala, e amenh memo vorta pra fazenda. Minha fia  bonita e  rica: no h de s 
defunto sem choro!... 
Lola  Compreendeo: o senhor vem pedir a liberdade de seu futuro genro!
Eusbio  Sim, madama; eu quero o moo livre e desembaraado de quaqu nus! (Lola 
levanta-se fingindo uma comoo extraordinria; quer falar, no pode, e acaba 
numa exploso de lgrimas. Eusbio levanta-se.) Que  isso? A madama est 
chorando?!...
Lola (Entre lgrimas.)   Perder o meu adorado Gouveia! Oh! o senhor pede-me um 
sacrifcio terrvel! (Pausa.) Mas eu compreendo... Assim  necessrio... Entre a 
mulher perdida e a menina casta e pura; entre o vcio e a virtude,  o vcio que deve 
ceder... Mas o senhor no imagina como eu amo aquele moo e quantas lgrimas 
preciso verter para apagar a lembrana do meu amor desgraado! (Abraa Eusbio, 
escondendo o rosto nos ombros dele, e solua.) Sou muito infeliz!   
Eusbio  (Depois de uma pausa, em que faz muitas caretas.)  Ento, madama?... 
	sossegue... A Madama no perde nada... ( parte.) Que cangote cheiroso!... 
Lola (Olhando para ele, sem tirar a cabea do ombro.)  No perco nada? Que quer o 
	senhor dizer com isso!
Eusbio  Quero diz que... sim... quero diz... Home, madama, tira a cabea da, porque 
	assim eu no acerto as palavras!
Lola (Sem tirar a cabea.)  Sim, a minha porta se fechar ao Gouveia... Juro-lhe que 
nunca mais o verei... mas onde irei achar consolao? ... Onde encontrarei uma alma 
que me compreenda, um peito que me abrigue, um corao que vibre harmonizado 
com o meu? 
Eusbio  Ns podemo entr num ajuste.
Lola (Afastando-se dele com mpeto.)  Um ajuste?! Que ajuste?! O senhor quer talvez 
propor-me dinheiro!... Oh! por amor dessa inocente menina, que  sua filha, no 
insulte, senhor, os meus sentimentos, no ofenda o que eu tenho de mais sagrado!...
Eusbio ( parte.)   um pancado! Seu Gouveia teve bom-gosto!... 
Lola  O senhor quer que eu deixe o Gouveia porque sua filha o ama e  amada por ele, 
no  assim? Pois bem:  seu Gouveia; dou-lho, mas dou-lho de graa, no exijo a 
menor retribuio! 
Eusbio  Mas o que vinha prop  madama no era um pagamento, mas uma... Cumo 
chama aquilo que se falou quando foi o 13 de Maio? Uma... Ora, sinh! 
(Lembrando-se.) Ah! uma indenizao! O caso muda muito de figura!
Lola  No!  nenhuma indenizao pretendo! Mas de ora em diante fecharei o meu 
corao aos mancebos da capital, e s amarei (Enquanto fala vai arranjando o lao 
da gravata e a barba de Eusbio.) algum homem srio... de meia-idade... filho do 
campo... ingnuo... sincero... incapaz de um embuste... (Alisando-lhe o cabelo.)  
Oh! No exigirei que ele seja belo... Quanto mais feio for, menos cimes terei! 
(Eusbio cai como desfalecido numa cadeira, e Lola senta-se no colo dele.) A esse 
hei de amar com frenesi... com delrio!... (Enche-o de beijos.)  
Eusbio (Resistindo e gritando.)  Eu quero i me embora! (Ergue-se.)  
Lola  Cala-te, criana louca!...
Eusbio  Criana louca! U!...
Lola (Com veemncia.)  Desde que transpuseste aquela porta, senti que uma fora 
misteriosa e magntica me impelia para os teus braos! Ora o Gouveia! Que me 
importa a mim o Gouveia se s meu, se est preso pela tua Lola, que no te deixar 
fugir?
Eusbio  Isso tudo  verdade?
Lola  Estes sentimentos no se fingem! Eu adoro-te!
Eusbio  Eu me conheo... j sou um home de idade... no sei fal como os dout da 
	Capit Feder...
Lola  Mas  isso mesmo o que mais me encanta na tua pessoa!
Eusbio  Quando a esmola  munto, o pobre desconfia.
Lola  Pe  prova o meu amor! J te no sacrifiquei o Gouveia?
Eusbio  Isso  verdade.
Lola  Pois sacrifico-te o resto!... Queres que me desfaa de tudo quanto possuo, e que v 
viver contigo numa ilha deserta? ... Oh! bastam-me o teu amor e uma choupana! 
(Abraa-o.) D-me um beijo! D-mo como um presente do cu! (Eusbio limpa a 
boca com o brao e beija-a .) Ah! (Lola fecha os olhos e fica como num xtase.) 
Eusbio ( parte.)  Seu Eusbio t perdido! (D-lhe outro beijo.)  
Lola (Sem abrir os olhos. )  Outro... outro beijo ainda... (Eusbio beija-a e ela afasta-se, 
	esfregando os olhos.) Oh! No ser isto um sonho? 
Eusbio  Bom, madama, com sua licena: eu vou me embora...
Lola  No; no consinto! Fao hoje anos e dou uma festa. A minha sala j est cheia de 
	convidados.
Eusbio  Ah! por isso  que, quando eu entrei, subia uns mascarado...
Lola  Sim;  um baile  fantasia. Precisas de um vesturio.
Eusbio  Que vesturio, madama?
Lola Espera. Tudo se arranjar. (Vai  porta.) Loureno!
Eusbio  Que vai faz, madama?
Lola  Vais ver.

 
 
 						- Cena IV - 
 			                   	    Os mesmos, Loureno

Lola (A Loureno que se apresenta muito respeitosamente.)  V com este senhor a uma 
casa de alugar vestimentas  fantasia a fim de que ele se prepare para o baile.
Eusbio  Mas...
Lola (Splice.)  Oh! No me digas que no! ( A Loureno.) D ordem ao porteiro para no 
deixar entrar o Sr. Gouveia. Esse moo morreu para mim!
Loureno ( parte.)  Que diabo disto ser aquilo?
Lola (Baixo a Eusbio.)  Ests satisfeito? (Antes que ele responda.) Vou preparar-me 
tambm. At logo! (Sai pela direita.) 

- Cena V  
                                                             Eusbio, Loureno
Eusbio (Consigo.)  Sim, sinh; isto  o que se chama vi busc l e sa tosquiado!  Se 
Dona Fortunata soubesse... (Dando com o Loureno.) Vamos l, seu... cumo o sinh 
se chama?
Loureno  Loureno, para servir a V.Exa.
Eusbio  Vamos l, seu Loureno... (Sem arredar p de onde est.) Isto  o diabo! 
Enfim!... Mas que espanhola danada! (Encaminha-se para a porta e faz lugar para 
Loureno passar.) Faz fav!
Loureno (Inclinando-se.)  Oh! Meu senhor... isso nunca... eu, um cocheiro!... Ento. Por 
obsquio!
Eusbio  Passe, seu Loureno, passe, que o sinh  de casa e est fardado! (Loureno 
passa e Eusbio acompanha-o . Mutao.)


					Quadro VII
			(Rico salo de baile profusamente iluminado)

- Cena I 
                                         Rodrigues, Dolores, Mercedes, Blanchette, convidados
                                                         (Esto todos vestidos  fantasia)


						Coro
		Que lindo baile! Que bela festa!
		Luzes e flores em profuso!
		A nossa Lola no  modesta!
		Eu sinto aos pulos o corao!

		     Mercedes, Dolores e Blanchette
		 Senhores e senhoras,
		Divirtam-se a fartar!
		Alegremente as horas
		Vejamos deslizar!
		A mocidade  sonho
		Esplndido e risonho

		Que rpido se esvai;
		Portanto, a mocidade
		Com voluptuosidade
		Depressa aproveitai!

		       Blanchette
		Dancemos, que a dana,
		Se o corpo nos cansa,
		A alma nos lana
		Num mundo melhor!

		     Dolores
		Bebamos, que o vinho,
		Com doce carinho,
		Nos mostra o caminho
		Fulgente do amor!

		   Mercedes
		Amemos, embora
		Chegada  hora
		Da flgida aurora,
		Deixemos de amar!
		Que em ns os amores,
		Tal como nas flores
		Perfumes e cores,
		No possam durar!

		    As Trs
		  Dancemos!

		Bebamos! Amemos!

Rodrigues (Que est vestido de Arlequim.)  Ento? Que me dizem desta fantasia? Vocs 
	ainda no me disseram nada!...
Mercedes  Deliciosa!
Blanchette  patante!
Rodrigues  Saiu baratinha, porque foi feita em casa pelas meninas. Como sabem, sou o 
homem da famlia.
Mercedes  Voc confessou em casa que vinha ao baile da Lola?
Rodrigues  No, que isso talvez aborrecesse minha senhora. Eu disse-lhe que ia a um 
baile dado em Petrpolis pelo Ministro Ingls...
Todas  Ah!ah!ah!...
Rodrigues (Continuando.) - ... baile a que no podia faltar por amor de uns tantos 
interesses comerciais...
Blanchette  Ah! Seu patife!
Dolores  De modo que, neste momento, a sua pobre senhora julga-o em Petrpolis.
Rodrigues (Confidencialmente, muito risonho.)  Sa hoje de casa com a minha bela 
fantasia dentro de uma mala de mo, e fingi que ia tomar a barca das quatro horas. 
Tomei mas foi um quarto do hotel, onde o austero negociante jantou e onde  noite 
se transformou no carro fechado voei a esta deliciosa manso de encantos e 
prazeres.Tenho por mim toda a noite e parte do dia de amanh, pois s tenciono 
voltar  tardinha. Ah! No imaginam vocs com que saudade estou da famlia, e 
com que satisfao abraarei a esposa e os filhos quando vier de Petrpolis!
Mercedes  Voc  na realidade um pai de famlia modelo!
Dolores  Um exemplo de todas as virtudes!
Blanchette  Esse vesturio de Arlequim no lhe fica bem! Voc devia vestir-se de Cato!
Rodrigues  Trocem  vontade, mas creiam que no h no Rio de Janeiro um chefe de 
famlia mais completo do que eu. (Afastando-se.) Em minha casa no falta nada. 
(Afasta-se.) 
Mercedes  Nada, absolutamente nada, a no ser o marido.
Dolores   um grande tipo.
Blanchette  E a graa  que a senhora paga-lhe na mesma moeda!
Mercedes   mais escandalosa que qualquer de ns.
Dolores  No quero ser m lngua, mas h dias encontrei-a num bonde da Vila Isabel 
muito agarradinha ao Lima Gama!
Blanchette  Aqueles bondes da Vila Isabel so muito comprometedores.
Rodrigues  (Voltando.)  Que esto vocs a a cochichar?
Mercedes  Falvamos da vida alheia.
Blanchette  Dolores contava que h dias encontrou num bonde da Vila Isabel uma 
senhora casada que mora em Botafogo.
Rodrigues  Isso no tira! Talvez fosse ao Jardim Zoolgico.
Dolores  Talvez; mas o leo ia ao lado dela no bonde...
Rodrigues  H, efetivamente, senhoras casadas que se esquecem do decoro que devem a 
si e  sociedade!
As trs (Com convico.)  Isso h...
Rodrigues  Por esse lado posso levantar as mos para o cu! Tenho uma esposa virtuosa!
Mercedes  Deus lha conserve tal qual tem sido at hoje.
Rodrigues  Amm.
Blanchette  E Lola que no aparece?
Dolores  Est se vestindo: no tarda.
Um Convidado  Oh! Que bonito par vem entrando!
Todos   verdade!
O Convidado  Faamos alas para receb-lo!
Rodrigues  Propomos que o recebamos com um rataplan!
Todos  Apoiada! Um rataplan... (Formam-se duas alas.) 


					      Coro
				Rataplan! Rataplan! Rataplan!
				Oh! que elegncia! que lindo par!...
				Todos os outros vem ofuscar!


- Cena II  

Os mesmos, Figueiredo e Benvinda
                                       (Entra Figueiredo, vestido de Radams, trazendo pela mo
				Benvinda, vestida de Ada.)

				 	   Figueiredo
- I 
Eis Ada,
Conduzida
Pela mo de Radams
Vem chibante,
Coruscante,
Da cabea at os ps!...
Que lindeza!
Que beleza!
Meus senhores aqui est
A trigueira
Mais faceira
De So Joo do Sabar!

         Coro
				A trigueira, etc...

					    Figueiredo
- II 
Diz tolices,
Parvoces,
Se abre a boca pra falar,
Se se cala
Se no fala,
Pode as pedras encantar!
Eu a lano
Sem descanso!
Na pontssima estar
A trigueira
Mais faceira
De So Joo do Sabar!

		Coro
A trigueira, etc...


Figueiredo  Minhas senhoras e meus senhores, apresento a Vossas Excelncias e 
	Senhorias, Dona Fredegonda, que  depois, bem entendido, das damas que se acham 
aqui presentes   a estrela mais cintilante do demi-monde carioca!
Todos ( Inclinando-se.)  Dona Fredegonda!
Figueiredo (Baixo a Benvinda.)  Cumprimenta.
Benvinda   revo!
Figueiredo ( Baixo.)  No Au revoir  quando a gente vai se embora e no quando chega.
Benvinda  Entonces...
Figueiredo (Baixo.)  Cala-te! No digas nada! ... (Alto.)  Convidado pela gentilssima 
Lola para comparecer a este forrobod elegante, no quis perder o magnfico ensejo, 
que se me oferecia, de iniciar a formosa Fredegonda nos insondveis mistrios da 
galanteria fluminense! Espero que Vossas Excelncias e senhorias queiram receb-
la com benevolncia, dando o necessrio desconto s clssicas emoes da estria, e 
ao fato de ser Dona Fredegonda uma simples roceira, quase to selvagem como a 
princesa etope que o seu vesturio representa.
Todos ( Batendo palmas.)  Bravo! Bravo! Muito bem!
Blanchette ( A Figueiredo.)  Descanse. A iniciao desta nefita fica por nossa conta. (s 
outras.) No  assim?
 Dolores e Mercedes  Certamente. (As trs cercam Benvinda, que se mostra muito 
 	 encafifada.) 
Figueiredo  (Vendo Rodrigues aproximando-se dele.)  Oh! Que vejo! Voc aqui!... Voc, 
o homem da famlia, o moralista retrico e sentimental, o palmatria do mundo!...
Rodrigues  Sim...  que ... so coisas... estou aqui por necessidade... por incidente... por 
uma srie de circunstncias que...que...
Figueiredo  Deixe-se disso! No h nada mais feio que a hipocrisia! Naquela tarde em 
que o encontrei no largo da Carioca, a mulata mostrou-me seu carto de visitas...
Rodrigues  O meu?... Ah! Sim, dei-lhe o meu carto... para...
Figueiredo  Para qu?
Rodrigues  Para...
Figueiredo  Olhe, c entre ns que ningum nos ouve: quer voc tomar conta dela?
Rodrigues  Qu! Pois j se aborreceu? 
Figueiredo  Todo o meu prazer  lan-las, lan-las, e nada mais. Voc viu a Mimi 
Bilontra?
Rodrigues  No. 
Figueiredo  Mas sabe o que  lanar uma mulher?
Rodrigues  Nesses assuntos sou hspede... voc sabe... sempre fui um homem de 
famlia... mas quer me parecer que lanar uma mulher  como quem diz atir-la na 
vida, inici-la neste meio...
Figueiredo  Ah! Qui Qui! Infelizmente no creio que desta se possa fazer alguma coisa 
mais que uma boa companheira.  uma mulher que lhe convinha.
Rodrigues  Mas eu no preciso de companheira! Sou casado, e, graas a Deus, a minha 
santa esposa...
Figueiredo  ( Atalhando.)  E o carto?
Rodrigues   Que carto? Ah! Sim, o carto do Largo da Carioca... Mas eu no me 
comprometi a coisa nenhuma!
Figueiredo  Bom; ento no temos nada feito... mas veja l!  se quer... 
Rodrigues   Querer, queria... mas no com carter definitivo!
Figueiredo  Ora v pentear macacos!

	(s ltimas deixas, Eusbio tem entrado, vestido com uma dessas roupas que 
vulgarmente se chamam de princs. Eusbio aperta a mo aos convidados um por um. 
Todos se interrogam com os olhos admirados de to estranho convidado.) 

- Cena III 
Os mesmos, Eusbio

Eusbio (Depois de apertar a mo a muitos dos circunstantes.)  T tudo oriando uns pros 
outro, admirado de me v aqui! Eu fui convidado pela madama dona da casa!
Benvinda ( parte.)  Sinh Eusbio! ...
Figueiredo ( A quem Eusbio aperta a mo,  parte.)  Oh! Diabo!  o patro da 
Benvinda!...
Blanchette  Donde saiu esta figura?
Dolores   um homem da roa!
Blanchette  No ser um doido? 
Eusbio ( Indo apertar por ltimo a mo de Benvinda, reconhecendo-)  Benvinda!
Benvinda   revo!
Figueiredo ( parte.)  E ela a dar-lhe!...
Eusbio  Tu tambm t de fantasia, mulata! O mundo t perdido!...
Benvinda  Eu vim com seu Figueiredo... mas vanc  que me admira!
Eusbio  Eu vim fal ca madama pro mode seu Gouveia... e ela me convidou pra festa... e 
eu tive que alug esta vestimenta, mas vim de tilbo porque hoje  sabo de aleluia e 
eu no quero embrulho comigo!
Figueiredo ( parte.)  Oh! Bom! Foi o seu professor de portugus!
Benvinda  Se sinh soubesse...
Eusbio  Cala a boca! Nem pens nisso  bo! Mas onde t o t seu Figueiredo? Eu 
sempre quero ol pra cara dele!
 Benvinda   aquele.
Eusbio ( Indo a Figueiredo.)  Pois foi o sinh que me desencaminhou a mulata? O sinh, 
um home branco e que j comea a pint? Agora me alembro de v o sinh l no 
hot s rondando a porta da gente!...
Figueiredo  Estou pronto a dar-lhe todas as satisfaes em qualquer terreno que mas 
pea... mas h de convir que este lugar no  o mais prprio para...
Eusbio (Atalhando.)  Ora viva! Eu no quero satisfao! A mulata no  minha fia nem 
parenta minha! Mas l em So Joo do Sabar h um home chamado seu Borge, que 
se souber... um!um!...  capaz de vi na Capit Feder!
Figueiredo  Pois que venha!
Mercedes  A chega a Lola!
Todos  Oh! A Lola!... viva a Lola!... viva!...


- Cena IV  
Os mesmos, Lola

						Coro
					At que enfim Lola aparece!
					At que enfim Lola c est!
					Vem to bonita que entontece!
					Lola vem c! Lola vem j!...

				(Lola entra ricamente fantasiada  espanhola.) 

						  Lola
					Querem todos ver a Lola!
					     Aqui est ela!

						Coro
					Aqui est ela!

						Lola
					Oh, que esplndida manola
					    No h mais bela!

						Coro
					No h mais bela!

						Lola
					Vejam que graa
					Tem a manola!
					No  chalaa!
					No  parola!
					Como se agita!
					Como rebola!
					Isso os excita!
					Isso os consola!
					O olhar brejeiro
					De uma espanhola
					Do mais matreiro
					Transtorna a bola,
					E sem pandeiro,
					Nem castanhola!

						Coro
					Vejam que graa, etc... (Dana geral.) 

Figueiredo  Gentilssima Lola, permite que Radams te apresenta Ada!
Lola  Folgo muito de conhec-la. Como se chama?
Benvinda  Benv... (Emendando.) Fredegonda.
Eusbio (  parte.)  Fredegonda? U! Benvinda mudou de nome!...
Figueiredo  Espero que lhe emprestes um raio da tua luz fulgurante!
Lola  Pode contar com a minha amizade.
Figueiredo  Agradece.
Benvinda   Merci.
Eusbio ( parte.)  A, mulata!...
Lola (Vendo Eusbio.)  Bravo! No imagina como lhe fica bem essa fatiota!
Eusbio  Diz que  vesturio de conde.
Lola  - Est irresistvel!
Eusbio  S a madama podia me met nestas fundura!
Blanchette (A Lola.)  Onde foste arranjar aquilo?
Lola  Cala-te!  um tesouro, um roceiro rico ... e primitivo!
Blanchette  Tiraste a sorte grande!
Lola  - Meus amigos, espera-os na sala de jantar um ponche, um ponche monumental, que
	mandei preparar no intuito de animar as pernas para a dana e os coraes para o	
 amor!
Todos  - Bravo! Bravo!...
Figueiredo  Um ponche! Nesse caso,  preciso apagar as luzes!
Lola  J devem estar apagadas. ( A Eusbio.)  Fica. Preciso falar-te.
Mercedes  Ao ponche, meus senhores!
Todos  Ao ponche!...
Blanchette (A Lola.)  No vens?
Lola  Vo indo. Eu j vou. Manda-me aqui algumas taas. 
Dolores  Ao ponche! 

					Coro
				Vamos ao ponche flamejante!
				Vamos ao ponche sem tardar!
				O ponche aquece um peito amante
				E as cordas da alma faz vibrar!

			      (Saem todos, menos Lola e Eusbio.) 


- Cena V  
Eusbio, Lola

Lola  Oh! Finalmente estamos ss um instante!
Eusbio (Em xtase.)  Como a madama t bonita!
Lola  Achas?
Eusbio  Juro por esta luz que nos alumeia que nunca vi uma mui to fermosa!...
Lola  Hei de pedir a Deus que me conserve assim por muito tempo para que eu nunca te 
desagrade! (Entra Loureno com uma bandeja cheia de taas de ponche 
chamejante.) 

- Cena VI 
Os mesmos, Loureno

Eusbio  Adeusinho, seu Loureno. Como passou de indagorinha pra c?
Loureno  (Imperturbvel e respeitoso.)   Bem; agradecido a Vossa Excelncia.
Lola  Deixe a bandeja sobre esta mesa e pode retirar-se. (Loureno obedece e vai a 
retirar-se.) 
 Eusbio  At logo, seu Loureno. (Aperta-lhe a mo.) 
Loureno  Oh! Excelentssimo! (Fiz uma mesura e sai, lanando um olhar significativo a 
Lola.) 
Lola  ( parte.)   um bruto!


- Cena VII  
Lola, Eusbio

Eusbio  Este seu Loureno  muito delicado. Arruma incelncia na gente que  um 
gosto! 
Lola  (Oferecendo-lhe uma taa de ponche.)   nossa sade! 
Eusbio  Bebida de fogo? No! No  o fio de meu pai!...
Lola  Prova, que hs de gostar. (Eusbio prova.) Ento, que tal? (Ele bebe toda a taa.) 
Eusbio   Home,  muito bo! Cumo chama isto?
Lola  Ponche.
Eusbio  Isto no faz m? Eu no tenho cabea forte! 
Lola  Podes beber sem receio.
Eusbio   Ento,  nossa, pra que Deus nos livre de alguma coisa! (Bebe.)
Lola  Dize... dize que hs de ser meu... d-me a esperana de ser um dia amada por ti!...
Eusbio   Eu j gosto de madama cumo qu!
Lola  No digas a madama. Trata-me por tu.
Eusbio   No me ajeito... pode s que despois...
Lola  Depois do qu?
Eusbio (Com riso tolo e malicioso.)  Ah! ah!
Lola (Dando-lhe outra taa.)   Bebe!
Eusbio  Ainda?
Lola  Esgotemos juntos esta taa! (Bebe um gole e d a taa a Eusbio.) 
Eusbio   Vou sab dos teus segredo. (Bebe.) 
Lola  E eu dos teus. (Bebe.)  Oh! O teu segredo  delicioso... tu gostas muito de mim... 
da tua Lola... mas receias que eu no seja sincera... tens medo de que eu te engane...
Eusbio (Indo a dar um passo e cambaleando.)  Minha Nossa Senhora! Eu tou fora de	
mim! Parece que tou sonhando! ... O t ponche tem feitio... mas  bo...  muito 
bo!... Quero mais!

					Dueto
					 Lola
	Dize mais uma vez! Dize que me amas!

					  Eusbio
	Eu j disse e arrepito!

					  Lola
			O corao me inflama!
			Vem aos meus braos! Vem!
			Assim como eu te amo, ai! Nunca amei ningum!
	   		Se deste afeto duvidas,
			Se me imaginas perjura,
			Com essas mos homicidas
			Me cavas a sepultura!
			Ser o golpe certeiro,
			A morte ser horrenda!
			Tu s o meu fazendeiro!
			E eu sou a tua fazenda!

  Eusbio
	Se  moda a bebedeira, tou na moda,
	Pois vejo toda a casa andando  roda!

					  Lola
						Bebe ainda uma taa
			Agora pode ser que bem te faa.

					  Eusbio
					(Depois de beber.)
	No posso mais! ( Atira a taa.) 
			Oh! Lola, eu tou perdido!

					  Lola
						Vem c, meu bem querido!

					  Juntos
			Lola					Eusbio
		Vem aos meus braos,       		Tou nos seus brao!
		Eusbio, vem!				Aqui me tem!
		Os meus abraos			Mas os abrao
		Te fazem bem!			No me faz bem!

Eusbio  Oh! Tou cuma fogueira aqui dentro! Mas  to bo ( Abraando Lola.) Lola, eu 
sou teu... s teu... faz de mim o que tu quiser, minha negra!
Lola  Meu? Isso  verdade? Tu s meu? Meu?
Eusbio  Sim, sou teu! T a! E agora? Sou teu e de mais ningum...
Lola  Ento, esta casa  tua! s o meu senhor, o meu dono, e como tal quero que todos te 
reconheam! (Indo  porta batendo palmas.) Eh! Ol! Venham todos!... venham 
todos! (Msica na orquestra.) 


- Cena VIII 
(Todos os personagens do ato.) 

						Final
						Coro
			Lola nos chama!
			Que aconteceu?
			Que nos quer Lola?
			Que sucedeu?

						Lola
			Meus amigos, desejo neste instante
			Apresentar-lhes o meu novo amante!
			Ele aqui est! Eu o amo e ele me ama.

Eusbio  Sim! Aqui est o home da madama!
Todos  Ele!... (Admirao geral.) 

						  Lola
			s o meu novo dono!
			Pode dizer-me: s minha!
			 teu,  teu somente
			O meu sincero amor!
			Eu dava-te o meu trono
			Se fosse uma rainha!
			Tu, exclusivamente, 
			s hoje o meu senhor!

						  Eusbio
			Sou eu o seu novo dono!
			Posso dizer:  minha!
			 meu unicamente
			O meu sincero am!
			Por ela eu me apaixono!
			A Lola  bonitinha!
			Eu, exclusivamente,
			Sou hoje o seu sinh!

						  Lola
			s o meu novo dono! Etc.

						  Coro
			Eis o seu novo dono!
			Pode dizer:  minha!
			 dele unicamente
			O meu sincero amor!
			Gostar assim de um mono
			 sorte bem mesquinha!
			Ele, exclusivamente,
			 hoje o seu senhor!...

						  Figueiredo
						(A Eusbio)
			Nossos cumprimentos,
			Meu amigo, aos centos
			Queira receber!
			E como hoje  trunfo,
			Levado em triunfo
			Agora vai ser!

(Figueiredo e Rodrigues carregam Eusbio. Organiza-se uma pequena marcha, que faz 
uma volta pela cena, levando o fazendeiro em triunfo.) 

						  Coro
			Viva! Viva o fazendeiro
			Bonacho e prazenteiro
			Que de um peito bandoleiro
			Os rigores abrandou,
			Conquistando a linda Lola,
			Essa esplndida espanhola
			Que o pas da castanhola
			Generoso nos mandou!

(Eusbio  posto sobre uma mesa ao centro da cena.)

  						  Eusbio
			Obrigado!
			Obrigado!
			Mas eu t muito chumbado!
			Vejo tudo dobrado!

						  Lola
			Dancem! Dancem! Tudo dance!
 			   Ningum canse
			   No canc,
			Pois quem se acha aqui presente
			   Tudo  gente
			   Folgaz!

						  Coro
			Sim! Dancemos!  tudo dance!
			   Ningum canse
			   No canc,
			Pois quem se acha aqui presente
			   Tudo  gente
			   Folgaz!

		(Canc desenfreado em volta da mesa.) 




						Ato III 
 

					Quadro VIII
				         A saleta de Lola

- Cena I  
Eusbio, Lola

(Eusbio, ridiculamente vestido  moda, prepara um enorme cigarro mineiro. Lola, deitada 
no sof, l um jornal e fuma.) 

Eusbio  Isto t o diabo! No sei de Dona Fortunata... no sei  de Quinota... no sei de 
Juquinha... no sei de seu Gouveia... No tenho corage de entr em casa!... Se eu me 
confess, no encontro um padre que me absorva!...  Lola, Lola, que diabo de 
feitio foi este?... tu fez de mim o que tu bem quis!
Lola  Ests arrependido?
Eusbio  No, arrependido, no tou, porque a coisa no se pode diz que no seje oba...
Mas minha pobre mui deve est furiosa!... E ento quando ela me vi assim, todo 
janota, coesta roupa de arfaiate francs, feito monsi da Rua do Ouvid... Oh! 
Lola! Lola! As mui  os tormento dos home! ... (Local que se tem levantado e que 
tem ido, um tanto inquieta, at  porta da esquerda, volta ao proscnio e vem 
encostar-se ao ombro de Eusbio.) 
Lola  - O tormento! Oh! No...

					Coplas
- I  
Meu caro amigo, esta vida
Sem a mulher nada vai!
 sopa desenxabida,
Sem uma pedra de sal!
Se a dor torna um homem triste,
Tem ele cura, se quer;
A prpria dor no resiste
Aos beijos de uma mulher!

- II 
Ao lado meu, queridinho,
Ser ditoso e feliz;
Ters todo o meu carinho,
 o meu amor que to diz.
Se tu me amas como eu te amo,
Se respondes aos meus ais,
Nada mais de ti reclamo,
No te peo nada mais!

Eusbio   Mas... me diz uma coisa, diabo, fala tua verdade... Tu t inteiramente curada de
	seu Gouveia?
Lola   No me fales mais nisso ! Foi um sonho que passou. (Pausa.) A propsito de 
sonho... foste ver na vitrine do Lus de Resende o tal broche com que eu sonhei?
 Eusbio (Coando a cabea.)  Fui... sabe quanto custa?
Lola (Com indiferena.)  Sei... uma bagatela... um conto e oitocentos... (Sobe e vai de
	novo observar  porta da esquerda.) 
Eusbio ( parte.)  Sim,  uma bagatela... a espanhola gosta de mim,  verdade, mas em 
to poucos dias j me custa cinco contos de ris! E agora o colar!...
Lola ( parte.)  Que demora! (Alto, descendo.) Mas enfim? O colar? Se  um sacrifico, 
no
quero!
 Eusbio  O home ficou de faz um abartimento e me mand a resposta. 
Lola ( parte.)   meu!   
 Eusbio  Se ele deix por um conto e quinhento, compro! No dou nem mais um vintm. 
Lola ( parte.)  Sobem a escada.  ele!... 
Eusbio   Parece que vem gente. (Batem com fora  porta.)  Quem ?
Lola  Deixa. Eu vou ver. (Vai abrir a porta. Loureno entra arrebatadamente. Traz 
culos azuis, barbas postias, chapu desabado e veste um sobretudo com a gola 
erguida. Lola finge-se assustada.) 

- Cena II  -
Os mesmos, Loureno

Loureno  Minha rica senhora, folgo de encontr-la!
Eusbio  Que  isso?
Loureno  Fui entrando para no lhe dar tempo de me mandar dizer que no estava em 
casa!  esse o seu costume!
Lola  Senhor!
Eusbio  Quem  este home danado?
Loureno  Quem sou?.. Um credor que quer o seu dinhero! Quer saber tambm quem 
esta senhora? Quer saber?  uma caloteira!
Lola  Que vergonha! (Cai sentada e cobre o rosto com as mos.) 
Eusbio  O sinh  um grande marcriado! No se insurta assim uma fraca mui que est 
em sua casa! Faa fav de sa!...
Loureno  Sair? Eu no saio daqui sem o meu rico dinheiro! O senhor, que tem cara de 
homem srio, naturalmente h de julgar que sou um grosseiro, um bruto; mas no 
imagina a pacincia que tenho tido at hoje! (Batendo com a bengala no cho.) 
Venho disposto a receber o meu dinheiro!...
Eusbio  Mas dinheiro de qu?
Loureno  De qu? Como de qu... Dinheiro que me deve esta senhora! Dinheiro limpo, 
que me pediu h quatorze meses para pagar no fim de trinta dias!
Lola ( Descobrindo o rosto muito chorosa.)  Com juros de sessenta por cento ao ano.
Loureno  Eu dispenso os juros! Isto prova que no sou nenhum agiota! O que eu quero, 
o que eu exijo,  o meu capital, os meus dois contos de ris,  que me saram 
limpinho da algibeira e seriam quase o dobro com juros acumulados!
Lola (Suplicante.)  Senhor, eu pagarei esse dinheiro logo que puder... Poupe-me tamanha 
vergonha diante deste cavalheiro que estimo e respeito!
Loureno  ora deixe-se de partes! Se a senhora no se quisesse sujeitar a estas cenas, 
solveria os seus compromissos! Mas no passa, j disse, de uma reles caloteira!...
Eusbio  Home, o sinh arrepare que eu tou aqui! Faa fav de v como fala!...
Loureno  Quem  o senhor?  marido desta senhora?  seu pai?  seu tio?  seu
padrinho?  seu irmo?  seu parente? Com que direito intervm? Eu tenho ou no 
tenho razo? Fui ou no fui caloteado?
Eusbio  Home, o sinh se cale! Olhe que eu sou mineiro!
Loureno  No me calo, ora a est! E declaro que no me retiro daqui sem estar pago e
satisfeito! (Senta-se.)
Eusbio  Seu home, olhe que eu...!
Loureno (Erguendo-se.)  Eh! L! Eh! L! Agora sou eu que lhe digo que se cale! O
senhor no tem o direito de abrir o bico!...
Lola (Chorando.)  Que vergonha! Que vergonha!
Eusbio ( parte.)  Coitadinha!...
Loureno  A princpio supus que o senhor fosse o amante desta senhora. Vejo que me
enganei... Se o fosse, j teria pago por ela, e no consentiria que eu a insultasse!...
Eusbio  Hein?
Lola (Erguendo-se correndo a Eusbio.)  No! No! Sou eu que no consinto que tu 
apagues!... No! No tires a carteira! Eu mesma pagarei esta dvida!
Loureno  Mas h de ser hoje, porque eu no me levanto desta cadeira (Torna a sentar-
se.) 
Eusbio  Mas eu...
Lola  - No! No pagues! Esse dinheiro pedi-o para mand-lo a minha me, que est em
Valladolid... Eu  que devo pag-lo (Voltando suplicante para Loureno.) ... mas 
no hoje!...
Loureno  (Batendo com a bengala.)  H de ser hoje!...
Lola  No posso! No posso!...
Loureno  - No pode?... D-me esse par de bichas que traz nas orelhas e ficarei satisfeito!
Lola  - Essas bichas custaram trs contos!
Loureno  So os juros.
Lola  Pois bem! (Vai tirar as bichas.)
Eusbio (Pegando-lhe no brao.)  No tira as bichas, Lola!... (Ao credor.)  Seu
desgraado, no tenho dois conto aqui no borso, mas me acompanha na casa do meu 
correspondente, na Rua de So Bento... vem receb o teu mardito dinheiro!
Loureno (Batendo com a bengala.)  J disse que daqui no saio!
Lola (Abraando Eusbio.)  No, Eusbio, meu querido Eusbio! No...
Eusbio (Sem dar ouvidos a Lola.)  Pois no sai, no sai, desgraado! (Desvencilhando-se 
de Lola.) Espera a sentado, que eu vou busc teu dinheiro! (Sai arrebatadamente. 
Lola, depois de certificar-se de que ele realmente saiu, volta, e desata a rir s 
gargalhadas. Loureno levanta-se, tira os culos, as barbas e o chapu, e tambm 
ri s gargalhadas.)   

- Cena III  
  Lola, Loureno

Lola  Soberbo! Soberbo! Foi uma bela idia! Toma um beijo! (D-lhe um beijo.) 
Loureno -  Aceito o beijo, mas olhe que no dispenso os vinte por cento.
Lola  Naturalmente. 
Loureno -   Voc h de convir que sou um grande artista!
Lola  E ento eu?
Loureno Voc tambm, mas se eu me houvesse feito cmico em vez de fazer cocheiro, 
estava a estas horas podre de rico!

					    Tango
- I 
Ai! Que jeito pro teatro!
	Que vocao!
Eu faria o diabo a quatro
	Num dramalho!
Mas s rdeas e ao chicote
	Jungido estou!
Sou cocheiro de cocote! (1)
	Nada mais sou!
Cumprir o nosso destino
Nem eu quis nem voc quis!
Fui ator desde menino
E voc foi sempre atriz!

- II  
Quando eu era mais mocinho
	(Posso afianar!)
Fiz furor num teatrinho
	Particular!
Talvez outro Joo Caetano
	Se achasse em mim.
Mas o fado desumano
	No quis assim!
Cumprir o nosso destino, etc...

Lola  Mas por que no acompanhaste o fazendeiro? Era mais seguro!
Loureno  Pois eu l me atrevia a andar por essas ruas de barbas postias! Nada, que no 
queria dar com os ossos no xadrez!
Lola   Tens agora que esperar aqui a p firme!
Loureno  Estou arrependido de ter perdoado os juros. (Batem  porta.) 
Lola  Quem ser?
Loureno (Depois de espreitar.)    o filho-famlia. 
Lola  Ah! O tal Duquinha? Tomaste as necessrias informaes? Que me dizes desse 
petiz?
Loureno (Abanando a cabea com ares de competncia.)  Digo que no seu gnero no
deixa de ser aproveitvel... O pai  muito severo, mas a me, que  rica, satisfaz 
todos os seus caprichos... No digo que voc possa dali mundos e fundos, mas  
fcil obrig-lo a contrair dvidas, se for preciso, para dar alguns presentes, e ouro  o 
que ouro vale. 
Lola  Manda-o entrar.
Loureno  No se demore muito, porque o fazendeiro foi a todo o vapor e no tarda por 
a. 
Lola  Temos tempo. A Rua de S. Bento  longe. (Sai. Loureno tira o sobretudo, a que 
junta as barbas, os culos e o chapu, e vai abrir a porta a Duquinha.) 

			
- Cena IV  
Duquinha, Loureno

			(Duquinha tem dezoito anos e  muito tmido.) 

Duquinha  A senhora Dona Lola est em casa?
Loureno (Muito respeitoso.)  Sim, meu senhor... e pede a V. Exa. Que tenha o obsquio 
de esperar alguns instantes.
Duquinha  Muito obrigado. ( parte.)  o cocheiro... no sei se deva...
Loureno   Como diz V. Exa.? 
Duquinha   Se no fosse ofend-lo, pedia-lhe que aceitasse... (Tira a carteira.) 
Loureno   Oh! No!... Perdoe V. Exa... no  orgulho; mas que diria a patroa se soubesse 
que eu...
Duquinha  Ah! Nesse caso... (Guarda a carteira.)  
Loureno (Que ia sair, voltando.)  Se bem que eu estou certo que V. Exa. No diria nada 
 Senhora Dona Lola...  
Duquinha ( Tirando de novo a carteira.)   Ela nunca o saber. (D-lhe  dinheiro.)  
Loureno -  Beijo as mos de V. Exa. A Senhora Dona Lola  to escrupulosa! ( parte.)
Uma de trinta! O franguinho promete... (Sai com muitas mesuras, levando o 
sobretudo e demais objetos.) 

- Cena V  
Duquinha  Estou trmulo e nervoso...  a primeira vez que entro em casa de uma destas 
mulheres... No pude resistir!.... A Lola  to bonita, e o outro dia, no Brao de 
Ouro, me lanou uns olhares to meigos, to provocadores, que tenho sonhado todas 
as noites com ela! At versos lhe fiz, e aqui lhos trago... Quis comprar-lhe uma jia, 
mas receoso de ofend-la, comprei apenas estas flores... Ai, Jesus! Ela a vem! Que 
lhe vou dizer?...


- Cena VI  
Duquinha e Lola

Lola  No me engano:  o meu namorado do Brao de ouro! (Estendendo-lhe a mo.) 
Como tem passado?
Duquinha  Eu... sim... bem, obrigado; e a senhora?
 Lola  Como tem as mos frias!
Duquinha Estou muito impressionado.  uma coisa esquisita: todas as vezes que fico 
impressionado.. fico tambm com as mos frias...
Lola   Mas no se impressione! Esteja  vontade! Parece que no lhe devo meter medo!
Duquinha  Pelo contrrio. 
Lola (Arremedando- o .)  Pelo contrrio! (Outro tom.) So minhas essas flores? 
Duquinha  Sim.. eu no me atrevia... (D-lhe as flores.) 
Lola   Ora essa! Por qu? (Depois de aspir-las.) Que lindas so! 
Duquinha  Trago-lhe tambm umas flores poticas.
Lola   Uma qu?...
Duquinha  Uns versos.
Lola   Versos? Bravo! No sabia que era poeta!
Duquinha  Sou poeira sim, senhora; mas poeta moderno, decadente...
Lola  Decadente? Nessa idade?
Duquinha  Ns somos todos muito novos.
Lola   Ns quem?
Duquinha  Ns, os decadentes. E s podemos ser compreendidos por gente da nossa 
idade. As pessoas de mais de trinta anos no nos entendem.
Lola  Se os senhor se demorasse mais algum tempo, arriscava-se a no ser compreendido 
por mim.
Duquinha  Se d licena, leio os meus versos. (Tirando um papel da algibeira.) Quer 
ouvi-los?
Lola  Com todo o prazer. 
Duquinha  (Lendo.)

	 flor das flores, linda espanhola!
	Como eu te adoro, como eu te adoro!
	Pelos teus olhos,  Lola,  Lola!
	De dia canto, de noite choro,
	Linda espanhola, linda espanhola!
 
Lola  Dir-se-ia que o trago de canto chorado! 
Duquinha  Oua a segunda estrofe!

	s uma santa, santa das santas!
	Como eu te adoro, como eu te adoro!
	Meu peito enlevas, minhalma encantas!
	Ouve o meu triste canto sonoro,
	Santa das santas, santa das santas!

Lola  Santa? Eu!... Isto  que  liberdade potica! 
Duquinha  A mulher amada pelo poeta  sempre santa para ele! Terceira e ltima 
estrofe...
Lola  S trs? Que pena!
Duquinha  (Lendo.) 

	 flor das flores! Bela andaluza!
	Como eu te adoro, como eu te adoro!
	Tu s  a minha plida musa!
	Desses teus lbios um beijo imploro,
	Bela andaluza, bela andaluza!

 Lola  Perdo, mas eu no sou da Andaluzia; sou de Valladolid.  
Duquinha  Pois h espanholas to bonitas que no sejam andaluzas?
Lola  Pois no! O que no h so andaluzas bonitas que no sejam espanholas.
Duquinha  Hei de fazer uma emenda.
Lola   E que mais? 
Duquinha  Como?
Lola   O senhor trouxe-me flores... trouxe-me versos... e no me trouxe mais nada?
Duquinha  Eu?
Lola   Sim... Os versos so bonitos... as flores so cheirosas... mas h outras coisas de que 
as mulheres gostam muito.
Duquinha  Uma caixinha de marrons glacs?
Lola   Sim, no digo que no...  uma boa gulodice... mas no  isso...
Duquinha  Ento que ?
Lola   Faa favor de me dizer para se inventaram os ourives.
Duquinha  Ah! J percebo... Eu devia trazer-lhe uma jia!
Lola  Naturalmente. As jias so o Ssamo, abre-te destas cavernas de amor.
Duquinha  Eu quis trazer-lhe uma jia, quis; mas receei que a senhora se ofendesse...
Lola   Que me ofendesse?... Oh! Santa ingenuidade!... Em que  que uma jia me poderia 
ofender? Querem ver que o meu amiguinho me toma por uma respeitvel me de 
famlia? Creia que um simples grampo de chapu, com um bonito brilhante, 
produziria mais efeito que todo esse: 

	Como te adoro, como te adoro,
	Linda espanhola, linha espanhola,
	Santa das santas, santa das santas!
 
Duquinha  Vejo que lhe no agrada a Escola Decadente....
Lola  Confesso que as jias exercem sobre mim uma fascinao maior que a literatura, e 
demais, no sou mulher a quem se ofeream versos... Vejo que o senhor no  de 
opinio de Bocage...
Duquinha  Oh! No me fale em Bocage!
Lola  Que mania essa de no nos tomarem pelo que somos realmente! Guarde os seus 
versos para as donzelinhas sentimentais, e, ande, v buscar o Ssamo, abre-te e 
volte amanh. ( Empurra-o para o lado da porta. Entra Loureno.) 
Duquinha  Mas...
Lola   V,v! No me aparea aqui sem uma jia. ( A Loureno.) Loureno conduza este 
senhor at a porta. (Sai pela direita.) 
Duquinha  No, no  preciso, no se incomode. ( parte.) Vou pedir dinheiro a mame. 
(Sai.) 
	

- Cena VII  

Loureno  s ordens de Vossa Excelncia. (S.)  A Lola saiu-me uma artista de 
primeirssima ordem!  Bem! Vou caracterizar-me de credor, que o fazendeiro no 
tarda por a. Quatrocentos mil-ris c para o degas! Que bom! Ho de grelar esta 
noite no Beldromo, onde conto organizar uma mala ona! (Sai cantarolando o 
tango. Mutao.)


				           	Quadro IX
				     No Beldromo Nacional

- Cena I  
                                 Lemos, Guedes, um Freqentador do Beldromo, pessoas do povo, 
depois amadores, depois Sil vous-plat, depois Loureno

(Durante todo este ato, ouve-se a intervalos o som de uma sineta que chama os 
compradores 	 casa das pules,  esquerda, e uma voz que grita: Vai fechar!)

					Coro
			No h nada como
			Vir ao Beldromo!
			So estas corridas
			Muito divertidas!
			Desgraadamente
			Muito raramente
			O povo, coitado!
			No  c roubado!
			Mas o cabeudo,
			Apesar de tudo,
			Pules vai comprando,
			Sempre protestando!
			Tipos aqui pisam,
			Mestres em cabalas,
			E elas organizam
			As famosas malas!
			E com artimanha
			(Manha mais do que arte)
			Quase sempre ganha
			Pfio bacamarte! (Entrada dos amadores.) 

				Coro de Amadores
			Aqui estamos os melhores
			   Amadores
			Da elegante bicicleta!
			Ns corremos, prazenteiros,
			   Mais ligeiros,
			Mais velozes que uma seta!
			   A todo o pblico
			   Dos beldromos
			   Muito simpticos
			   Se diz que somos
			   O povo aplaude-nos
			   Quando vencemos,
			   Mas tambm vaia-nos
			   Quando perdemos!
			Aqui estamos os melhores, etc...

O Freqentador do Beldromo ( A Lemos e Guedes.)  Parece impossvel!.. No preo 
passado joguei no nmero 17 por ser a data em que minha mulher morreu, e, por 
causa das dvidas, joguei tambm no nmero 18, por ser a data em que ela foi 
enterrada... e ganhou o nmero 19! Parece impossvel!...
Lemos   verdade! Parece! (A Guedes.) Voc j viu velho mais cabuloso?
Freqentador  Agora vou jogar no 25... No pode falhar, porque a sepultura dela tem o 
nmero 525...
Guedes  ...  isso... v comprar, v.
O Freqentador  Vou jogar uma em primeiro e duas em segundo. (Agasta-se para o lado 
da casa das pules.) 
Lemos  E que me dizes a esta,  Guedes? O Sil-vous-plat foi arranjar tudo, e do 
Loureno 
nem novas nem mandados!
Lemos  E que me dizes a esta,  Guedes? O Sil-vous-plat foi arranjar tudo, e do 
Loureno nem novas nem mandados!
Guedes  Quem sabe se ele teve de levar Lola de carro a algum teatro?...
Lemos  Qual! No creias! Pois se ele  um cocheiro que faz da patroa o que bem quer!...
Guedes  Est s pelo diabo! Uma mala segura, e no h dinheiro para o jogo! ... Olhem 
aqui est de volta o Sil-vous-plat.
Sil-vous-plat (Aproximando-se, vestido de corredor)  Venho da pista. Est tudo 
combinado.
Lemos  Sim, mas ainda no temos o melhor! O caixa da mala no aparece!
Sil vous-plat  Que diz voc? Pois o Loureno...
Guedes  O Loureno at agora!
Loureno (Aparecendo entre eles.)  Que esto vocs a a falar do Loureno?
Os Trs  Ora graas!...
Loureno  Vocs sabem que eu sou de palavra... Quando digo que venho  porque venho!
Lemos  Estvamos sobre brasas!
Loureno  J esto vendendo?
Guedes  H que tempos!
Sil-vous-plat  J se fez a segunda apregoao.
Loureno  O que est combinado?
Sil-vous-plat  Ganha o Menelik. 			
Loureno  O Flix Faure no corre?
Sil-vous-plat  Corre.
Loureno  Se tiver boa mquina, pode ganhar sem querer.
Sil-vous-plat  Est combinado que ele cair na quinta volta.
Loureno  Quantas voltas so?
Sil-vous-plat  Oito.
Loureno . Quem mais corre?
Sil-vous-plat  O Garibaldi, o Carnot e o Colibri
Loureno  Que Colibri  esse?
Sil-vous-plat   um pequenote... um bacamarte... no vale nada... nem eu o meti na 
combinao!
Loureno -  Os outros quanto  recebem?
 Sil-vous-plat  Quinze mil-ris cada um.
Loureno  E dez por cento dos lucros para vocs trs... Bom. (Dando dinheiro a Lemos.) 
Tome, seu lemos; v comprar dez pules... (Dando dinheiro a Guedes.) Tome, seu 
Guedes: compre outras dez... V cada um por sua vez, para disfarar... Seno, o 
rateio no d para o buraco de um dente! Eu compro trs cheques. Vamos. 
(Afastam-se todos.) 

- Cena II  
Benvinda, Figueiredo

Benvinda   Me deixe! J te disse que no quero mais sab do sinh!
Figueiredo  Por qu, rapariga?
 Benvinda  O sinh coessa mania de quer me lan  um cacete insuportave! T sempre 
me dando lio e raiando comigo! Pra isso eu no percisava sa de casa de sinh 
Eusbio!
Figueiredo  Mas  para o teu bem que eu...
Benvinda  Quais pera meu bem nem pera nada! Hei de encontr quem me queira mesmo 
falando cumo se fala na roa!
Figueiredo  Ests bem aviada!
Benvinda  Eu mesmo posso me lan sem percisar do sinh!
Figueiredo  Oh! Mulher, olha que tu no tens nenhuma experincia do mundo. s uma 
tola... uma ignorantona... no sabes o que  a Capital Federal!
Benvinda   Como o sinh se engana! Eu j tou meia capitalista-federalista!
Figueiredo  Bom; Tua alma, tua palma! Estou com a minha conscincia tranqila. Mas v 
l: se algum dia precisares de mim, procura-me.
Benvinda  Merci! (Vai-se afastando.)
Figueiredo  Adeus, Fredegonda!
Benvinda (Parando.)  Que Fredegonda! Assim  que o sinh me lan! Me deu logo um 
nome to feio que toda a gente se ri quando ouve ele!
Figueiredo   porque no sabem a histria! Fredegonda foi uma rainha... era casada com 
Chilperico...
Benvinda  Pois eu por minha desgraa no sou casada com seu Borge.  revo. (Afasta-
se.) 
Figueiredo (S.)  No fundo, estou satisfeito, porque decididamente no havia meio de 
fazer dela alguma coisa... Parece que vai chover... mas j agora vou assistir  
corrida. (Afasta-se.)   


- Cena III  
                   Loureno, Lemos, Guedes, depois o Freqentador do Beldromo
Loureno  Bom! Venham as pules. (Lemos e Guedes entregam as pules, que ele 
guarda.) 
Lemos  A mala no transpirou. Flix Faure  o favorito.
Guedes  Queira Deus que o Sil-vous-plat no d com a lngua nos dentes!
O Freqentador (Voltando.)  Comprei no 25... Mas agora me lembro... somando o 
nmero da sepultura d a soma de 12. 5 e 2, 7; e 5, 12. Ora 12 e 12 so 24.
Lemos  24  o tal Colibri. No deite o seu dinheiro fora!
O Freqentador  Aceito o conselho... J c tenho o 25... e no pode falhar! O diabo  que 
parece que vai chover. O tempo est muito entroviscado! (Afasta-se.) 
Loureno (Que tem estado a calcular.)  Se o Flix Faure  o favorito, o Menelik no pode 
dar menos de sete mil-ris.
Guedes  Para cima!
Loureno  Separemo-nos. Creio que a diretoria j nos traz de olho... No fim da corrida 
esper-los-ei no lugar do costume para a diviso dos lcaros. At logo!
Lemos e Guedes  At logo. (Afastam-se. Benvinda volta passeando.)

						
- Cena IV  
       Loureno e Benvinda

Loureno (Consigo.)   Estes malandretes ganham pela certa... no arriscam um nicolau... 
(Vendo Benvinda.) No me engano:  a celeste Ada do Sbado de aleluia... 
Reconhecer ela na minha fisolostria o cocheiro da Lola? Vejamos! (Passa e 
acotovela Benvinda.)  Adeus, corao dos outros! 
Benvinda -  V passando seu caminho e no bula ca gente!
Loureno  To zangada, meu Deus!
Benvinda  Que deseja o sinh?
Loureno   Pelo menos saber onde mora.
Benvinda  Moro na rua das casa.
Loureno   No seja m! Bem sei que  aqui mesmo na Rua do Lavradio.
Benvinda  Quem le disse?
Loureno  Ningum. Fui eu que lhe vi na janela.
Benvinda  Pois no v l que no lhe arrecebo!
Loureno   Por que no me arrecebe, marvada? 
Benvinda  Vou s franca... S arrecebo quem quis me tir desta vida. No nasci pra isto. 
Quero viv em famlia.
Loureno  Ah, seu benzinho! Isso  que no pode ser! Hoje em dia no  possvel viver 
em famlia!
Benvinda  Por qu?
Loureno  Por qu? Ainda me perguntas, amor? 

					Coplas
				          Loureno
- I  

J no se encontra casa decente,
Que custe apenas uns cem mil-ris,
E os senhorios constantemente
O preo aumentam dos aluguis!
Ainda o povinho muito inquieto,
E tem  pudera  toda a razo;
No aparece nenhum projeto
Que nos arranque desta opresso!
	Um cidado neste tempo
	No pode andar amarrado...
	A gente v-se , e adeusinho:
	Cada um vai pro seu lado!

- II  

Das algibeiras some-se o cobre,
Como levado por um tufo!
Carne de vaca no come o pobre,
E qualquer dia no come po!
Fsforos, velas, couve, quiabos,
Vinho, aguardente, milho, feijo,
Frutas, conservas, cenouras, nabos,
Tudo se vende prum dinheiro!
	Um cidado neste tempo etc...

Benvinda  Tenho sede, venha pag um copo de cerveja. 
Loureno  Com muito gosto, mas da Babilnia, que as alamoas esto pela hora da morte!
Benvinda  Vamo.
Loureno  Como voc se chama, seu benzinho.
Benvinda  Artemisa.
Loureno  Que bonito nome! Vamos ali no botequim do Lopes. (Saem.) 


- Cena V  
Eusbio, Lola, Mercedes, Dolores, Blanchette, depois Figueiredo

(Eusbio entra no meio das mulheres: traz o chapu atirado para a nuca, e um enorme 
charuto. Vm todos alegres. Acabaram de jantar e lembraram-se de dar uma volta pelo 
Beldromo.) 

Eusbio  No, Lola! Tu hoje h de me deix i pra casa! Dona Fortunata deve est furiosa!
Lola  Que Dona Fortunata que nada!
Mercedes  Havemos de acabar a noite num gabinete do Munchen!
Dolores  No o deixamos!
Blanchette  Est preso!... E, demais, vamos ter chuva!
Eusbio  Na chuva j tou eu, se no me engano. Aquele vinho  bo, mas  veiaco!
Figueiredo (Aproximando-se.)  Ol! viva a bela sociedade!
Lola  - Olha quem ele ! O Figueiredo! 
Mercedes  O Radams!
Dolores  Voc no Beldromo!
Figueiredo  Por mero acaso... No gosto disto... No Rio de Janeiro no h divertimentos 
que prestem! No temos nada, nada!
Eusbio (Num tom magoado.)  Como vai a Fredegonda, seu Figueiredo?
Figueiredo  A Fredegonda j no  Fredegonda!
Todos  Ah!...
Figueiredo  Tornou a ser Benvinda, como antigamente. Deixou-me!
Todos  Deixou-o?
Figueiredo  Deixou-me, e anda  procura de algum que saiba lan-la melhor do que eu!
Eusbio  U!
Figueiredo  Deve estar aqui no Beldromo... Acompanhei-a at c para pedir-lhe que 
tivesse juzo, mas a sua resoluo  inabalvel... Pobre rapariga!...
Eusbio (Muito comovido, para o que concorre o vinho que bebeu.)  Coitada da 
Benvinda!... Podia t casada e agora... anda atirada por a como uma coisa -toa... 
sem ningum que tome conta dela... (Com lgrimas na voz.) Coitada... no faum 
caso... Eu vi ela pequena... nasceu e cresceu l em casa.. (Chorando.) Minha fia 
mamou o leite da me dela!
Todos  Que  isso?! Chorando?! Ora esta!...
Eusbio (Com soluos.)  Que chorando que nada! J passou!... No foi nada!... Que qu 
vacs! Mineiro tem muito corao!...
Todos  Vamos l! Que  isso? Ento? ...
Lola  H de passar. So efeitos do Chambertin!  Eusbio, onde... ento?... v comprar 
umas pules para tomar interesse pela corrida.
Eusbio  Eu no entendo disso!
Figueiredo  Escolha um nome daqueles. Olhe, ali, na pedra... Ligria, Carnot, Menelik, 
Colibri e Flix Faure.
Eusbio  Colibri! Eu quero Colibri!
Figueiredo  Ouvi dizer que no vale nada...  o que aqui chamam um bacamarte... No 
lhe sorri nenhum dos presidentes da Repblica Francesa?
Eusbio  No sinh, no quero outro! Colibri  o nome de um jumento que tenho l na 
fazenda.
Dolores, Mercedes e Blanchette (Ao mesmo tempo.)  No faa isso! Se  bacamarte, no 
presta!  dinheiro deitado fora!
Lola  Deixem-no l!  um palpite! V comprar cinco pules naquele guich.
Eusbio  Naquele qu?
Figueiredo  Naquele buraco.
Eusbio  Canto custa?
Figueiredo  Cinco pules so dez mil-ris.
Eusbio  Mas como se faz?
Figueiredo  Estenda o brao, meta o dinheiro dentro do buraco, abra a mo, e diga: 
Colibri.
Eusbio  Sim, sinh. (Afasta-se.) 
Figueiredo  Pois  o que lhes conto: estou livre como o lindo amor!
Mercedes  Se me quiser tomar sob a sua valiosa proteo...
Dolores  Se quiser fazer a minha ventura...
Blanchette  Se me quiser lanar...
Lola  Vocs esto a ler! Ele s gosta de...
Figueiredo (Atalhando.)  De trigueira! Eu digo trigueiras, por ser menos rebarbativo... 
Acho que as brancas so encantadoras, apetitosas, adorveis, lindssimas, mas que 
querem?  tenho c o meu gnero...
Mercedes  Isso  um crime!
Dolores  Devia ser preso!
Blanchette  Deportado!
Lola  - Sim, deportado... para a Costa da frica!...


					Quinteto
					  Lola
	
			 Figueiredo, eu c sou franca;
			Estou com pena de voc!
			
					As outras
			Ns temos pena de voc!
			
					Figueiredo
			Faam favor, digam por qu!

					Lola 
			Por no gostar da mulher branca!

					As outras
			Por no gostar da mulher branca!

					Figueiredo
			Meu Deus! Deveras!
			Por isso s?

					Todas
			Somos sinceras!
			Causa-nos d!

					Figueiredo
			Oh!oh!oh!oh!

					Todas
			Oh!oh!oh!oh!
			
					Lola 
- I  
   			Pele cndida e rosada,
			Cetinosa e delicada
			Sempre teve algum valor!

					Figueiredo
			Que tolice!

					Todas
			Sim, senhor!

					Lola
			A cor branca, pelo menos,
			Era a cor da loura Vnus,
			Deusa esplndida do amor.

					Figueiredo
			Quem lhe disse?

					Todas
			Sim, senhor!

					Figueiredo
			Se eu da Mitologia
			Fosse o reformador!
			Vnus transformaria
			Numa mulata!

					Todas
			Horror!...

					Figueiredo
- II  
A mimosa cor do jambo
Pede um meigo ditirambo
Cinzelado com primor!

		Lola
Que tolice!

		Todas
No, senhor!

		Figueiredo
Eu com os ovos, por sistema
Deixo a clara e como a gema,
Porque tem melhor sabor.

		Lola
Quem lhe disse?

		Todas
No, senhor!

		Figueiredo
Se eu da Mitologia
Fosse o reformador
Vnus transformaria
Numa mulata!

		Todas
Horror!...

		Juntos
Figueiredo				As Cocotes
		Gosto do amarelo!			Gosta do amarelo!
		Que prazer me d!			Maus exemplos d!
		Nada mais anelo,			Vara de marmelo
		Nem aspiro j!			Merecia j!

Eusbio (Voltando.)  Aqui est cinco papezinho do Colibri. Custou! Toda a gente queria 
compr! Eu meti o dinheiro no buraco, e o home l de dentro perguntou: Onde 
leva? Eu respondi: Colibri, e ele ficou muito espantado, e disse:  o premero 
que compra nesse bacamarte.
Figueiredo  Vamos ver a corrida l de cima. Pedirei um camarote ao Cartaxo.
Todos  Vamos! (Saem.) 

			
- Cena VI  -
     Benvinda, Loureno e Povo
Loureno ( Correndo.)  Correndo ainda apanho; mas olhe que o Menelik... (Desaparece.) 
Benvinda  No sinh, no sinh! No quero Menelik! Compre no que eu disse. (S, no
	proscnio.) No gosto deste home: tem cara de padre...  muito enjoado... Nem 
deste, nem de nenhum... No gosto de ningum... O que eu tenho a faz de mi  
vort para casa e pedi perdo a sinh via. (Ouve-se o sinal do fechamento do jogo.) 
Pessoas do povo  Fechou! Fechou! Ora, e eu que no comprei (Dirigem-se todos para o 
fundo: vo assistir  corrida.) 
Loureno (Voltando.)  Sempre cheguei a tempo de comprar a pule! (Dando a pule a 
Benvinda.) Mas que lembrana a sua de jogar no Colibri!
Benvinda   porque  o nome de um burrinho que h numa fazenda onde eu fui pass 
uns tempo.
Loureno  Ah!  cabula? (Ouve-se um toque de campanhia eltrica.) Se ele vencesse, 
voc levava a casa das pules! (Ouve-se um tiro de revlver e um pouco de msica.) 
Comeou a corrida! Vamos ver! (Afastam-se para o fundo.) 


- Cena VII  
                                                     Gouveia, Fortunata e Quinota
Fortunata (Entrando apressada  frente de Gouveia e Quinota.)  No! No quero v meu 
fio corr na t histria! ... E logo que acab a corrida, levo ele pra casa, e aqui no 
vorta!... Que coisa!... Benvinda desaparece... Seu Eusbio desaparece... Juquinha 
no sai do Beldromo... Tou vendo quando Quinota me deixa!
Quinota  Oh! Mame! No tenha esse receio!
Fortunata  Que terra! Eu bem no queria vi no Rio de Janeiro!
Quinota  Que vida to diversa da vida da roa! ( A Gouveia.) No ficaremos aqui depois 
de casados.
Gouveia  Por qu?
Quinota  A vida fluminense  cheia de sobressaltos para as verdadeiras mes de famlia!
Fortunata  Olhe seu Eusbio, um home de cinqenta ano, que teve at agora tanto juzo! 
Arrespirou o  da Capit Feder, e perdeu a cabea!
Gouveia  Apanhou o micrbio da pndega!
Quinota  Aqui h muita liberdade e pouco escrpulo... faz-se ostentao do vcio... no se 
respeita ningum...  uma sociedade mal constituda.
Gouveia  No a supunha to observadora.
Quinota  Eu sou roceira, mas no tola que no veja o mal onde se acha.
Fortunata  parece que j est chuviscando... Eu senti um pingo...
Quinota  O senhor, por exemplo, o senhor, se pensa que me engana, engana-se. Conheo 
perfeitamente os seus defeitos.
Fortunata ( parte.)  A!
Gouveia  Os meus defeitos?
Quinota  Oh! So muitssimos  e o menor deles no  querer aparentar uma fortuna que 
no existe. Desagradam-me esse visveis esforos que o senhor faz para iludir os 
outros. O melhor partido que o senhor tem a tomar... e olhe que este  o conselho da 
tua noiva, isto , da pessoa que mais o estima neste mundo... o melhor partido que o 
senhor tem a tomar  abrir-se com papai... confessar-lhe que  um jogador 
arrependido...
Gouveia  Oh! Quinota!...
Fortunata  No tem   Quinota  nem nada!  a verdade!...
Quinota  Ir conosco para a fazenda, onde no lhe faltar ocupao.
Fortunata  Sim sinh;  mi trabai na roa que faz vida de vagabundo na cidade!  
Outro pingo! 
Quinota  Papai precisa muito associar-se a um moo inteligente, nas suas condies. 
Sacrifique  sua tranquilidade os seus prazeres; case-se, faa-se agricultor, e sua 
esposa, que no ser muito exigente e ter muito bom-senso, todos os anos lhe dar 
licena para vir matar saudades daquilo a que o senhor chama o micrbio da 
pndega.
Gouveia ( parte.)  Sim, senhor, pregou-me uma lio de moral mesmo nas bochechas!
Fortunata  Seu Gouveia,  mi a gente i pro lug por onde Juquinha tem de sa.
Gouveia  Deve sair por acol... Vamos esper-lo na passagem. (Estendendo o brao.)  
verdade, j est chuviscando.
(Saem. O final da corrida. Um toque de campanhia eltrica. Pouco depois um pouco de 
msica. Vozeria do povo, que vem todo ao proscnio.) 


					Coro
				Oh! Quem diria
				Que ganharia
				O Colibri!
				Ganhou  toa!
				Pule to boa
				Eu nunca vi
					Aqui!

	
- Cena VIII 
Lemos, Guedes, Loureno, o Freqentador do Beldromo, depois 
Eusbio, Figueiredo, Lola, Mercedes, Dolores, Blanchette, depois 
Sil-vous-plat, Juquinha, depois Fortunata, Quinota, Gouveia, 
depois Benvinda, depois Loureno.

Lemos  Ganhou o Colibri! Quem diria! 
Guedes  O Colibri... que pulo...
Loureno  Que desgraa!... O Flix Daure caiu de propsito, mas por cima do Flix Faure 
caiu o Menelik, por cima do Menelik o Ligria, por cima do Ligria, o Carnot, e o 
Colibri, que vinha na bagagem, no caiu por cima de ningum e ganhou o preo! 
Que palpite de mulata! Onde estar ela? Vou procur-la. (Desaparece.) 
O Freqentador (A Lemos e Guedes.)  Ento? Eu no dizia? Ganhou o 24! Doze e doze,
vinte e quatro. ( Com uma idia.) Ah!
Os Dois  Que ?
O Freqentador  Fui um asno! 24  a data da missa de stimo dia de minha mulher! 
(Lemos e Guedes afastam-se rindo.) Ora esta! Ora esta!... E era um pulo! (Abre o 
guarda-chuva.) Chove... Naturalmente no h mais corridas hoje... (Afasta-se. H 
na 
cena alguns guarda-chuvas abertos. Aparecem Eusbio, Figueiredo e as cocotes. 
Vm todos de guarda-chuvas abertos.) 
Figueiredo  Bravo! Foi um tiro, seu Eusbio, foi um tiro!... O Colibri vendeu apenas seis 
pules e o senhor tem cinco!
Sil-vous-plat  (Metendo-se na conversa, e abrigando-se no guarda-chuva de Eusbio.)  
D mais de cem mil-ris cada pule!...
Eusbio  Mais de cem mil-ris? Ento? Eu no disse? Co aquele nome, o menino no 
podia perd! O Colibri  um jumento de muita sorte! ( A Sil-vous-plat.) O sinh 
conhece ele?
Sil-vous-plat  Quem? O Colibri? Sim senhor!
Eusbio  V cham ele. Quero le d uma lambuge!
Sil-vous-plat  Nem de propsito! Ele a vem. (Chamando Juquinha que aparece.)  
Colibri! Est aqui um senhor que jogou cinco pules em voc e quer dar-lhe uma 
gratificao.
Juquinha (Aproximando-se muito lampeiro.)  Aqui estou, qu d o home?
Eusbio  Era o Juquinha!
Juquinha  Papai (Deixa a correr e foge.) 
Eusbio  Ah! Tratante! O Colibri era ele! Alembrou-se do jumento! ... E foge do pai! Ora 
espera l! (Corre atrs do Juquinha e desaparece. A chuva cresce. O povo corre 
todo e abandona a cena.) 
Lola  Onde vai? Espere! (Corre atrs de Eusbio e desaparece.) 
As Mulheres  Vamos tambm! Vamos tambm. (Correm atrs de Lola e desaparecem.)
Figueiredo  Ento, minhas filhas? No corram! (Vai atrs delas e desaparece.) 
Fortunata  (Entrando de guarda-chuva.)  -  ele!  ele!  seu Eusbio! (Sai correndo pelo
 mesmo lado.) 
Quinota (Entrando, idem.)  Mame! Mame! (Corre acompanhando Fortunata.) 
Gouveia (Idem.)  Minhas senhoras!... Minhas senhoras! (Corre e desaparece.) 
Benvinda (Entrando perseguida por Loureno, ambos de guarda-chuva.)  Me deixe! Me 
deixe!... (Desaparece.) 
Loureno ( S em cena.)  D c a pule, seu benzinho, d c a pule, que eu vou receber! 
(Desaparece. Mutao.) 
 
				
					- Quadro X- 
				     A Rua do Ouvidor
 			1 Literato, 2 Literato, Pessoas do Povo, depois 
                                              Fortunata, Quinota, Juquinha

					Coro
			No h rua como a Rua
			Que se chama do Ouvidor!
			No h outra que possua
			Certamente o seu valor!
			Muita gente h que se mace
			Quando, seja por que for,
			Passe um dia sem que passe
			Pela Rua do Ouvidor!

1 Literato  Tens visto o Duquinha?
2 Literato  Qual! Depois que se meteu com a Lola, ningum mais lhe pe a vista em 
cima!
1 Literato   pena! Um dos primeiros talentos desta gerao...
2 Literato  Apaixonado por uma cocote!
1 Literato   Felizmente a arte lucra alguma coisa com isso... O Duquinha faz magnficos 
versos  Lola. Ainda ontem me deu uns, que so puros Verlaine. Vou public-los no 
segundo nmero da minha revista.
2 Literato- Que est para sair h seis meses?
1 Literato  Oh! V que linda rapariga ali vem! 
2 Literato- Parece gente da roa. (Ficam de longe, a examinar Quinota, que entra com a
 me e o irmo. Vm todos trs carregados de embrulhos.) 
Fortunata  Vamo, minha fia, vamo tom o bonde no largo de So Francisco. As nossa 
compra est feita. Amenh de menh vamos embora!
Quinota  E... seu Gouveia?
Fortunata  No me fale de seu Gouveia! H oito dia no aparece! Fez cumo teu pai! Foi 
mi assim... Havia de s muito mau marido!
Juquinha  Eu no quero i pra fazenda!
Fortunata  Eu te amostro se tu vai ou no vai! Anda pra frente! (Vo saindo. ) 
1 Literato ( Quinota.)  Adeus, tetia!
Fortunata  Quem  que  tetia? Arrepita a gracinha, seu desavergonhado, e ver com le 
parto este chapu-de-sol no lombo!... (Risadas.)  Vamo! Vamo!... Que terra!... Eu 
bem no queria vi no Rio de Janeiro! (Saem entre risadas.) 


- Cena II  
1 Literato, 2 Literato, Pessoas do Povo, depois Duquinha

2 Literato  Tu ainda um dia te sais mal com esse maldito costume de bulir com as 
moas!
1 Literato  Nada disse que a ofendesse. Adeus, tetia no  precisamente um insulto.
2 Literato  Pois sim, mas que farias tu se dissessem o mesmo  tua irm?
1 Literato  No  a mesma coisa! Minha irm e....
2 Literato  No  melhor que as irm dos outros. (Entra Duquinha, vem plido e com 
grandes olheiras.) 
Duquinha  Ah! Meus amigos! Meus amigos! Se soubessem o que me aconteceu? 
Os Dois  Fala!
Duquinha  O fazendeiro... aquele fazendeiro de quem lhes falei?...
Os Dois  Sim!
Duquinha  Apanhou-me com a boca na botija!...
1 Literato  Mas que tem isso?
Duquinha  Como que tem isso? Aquele homem  rico! Dava tudo  Lola!
2 Literato  Tu tambm no lhe davas pouco!
Duquinha (Vivamente.)  Dinheiro nunca lhe dei, - nem ela o aceitaria...
1 Literato  Pois sim!
Duquinha  Jias.... vestidos... pares de luvas... leques... chapus... Dinheiro nem vintm. 
Quem sempre me apanhava algum era o  Loureno, o cocheiro.
2 Literato  s um pateta! Mas conta-nos isso!
Duquinha  Estvamos  ela e eu  na saleta e o bruto dormia na sala de jantar. Eu tinha 
levado  Lola umas prolas com que ela sonhou... Vocs no imaginam como 
aquela rapariga sonha com coisas caras!
1 Literato  Imaginamos! Adiante!
Duquinha  Eu lia para ela ouvir os meus ltimos versos... aqueles que te dei ontem para a 
revista....
	
	Depois que te amo, depois que s minha,
	Nado em delcia, nado em delcia...

1 Literato  Eu sei, Verlaine puro.
Duquinha  Obrigado.  No fim de cada estrofe, eu dava-lhe um beijo... um beijo quente e 
apaixonado... um beijo de poeta... Pois bem, depois da terceira estrofe: 

	Oh! Se algum dia, destino fero
	Nos separasse, nos separasse...

1 Literato (Continuando.) 
	- O que faria contar no quero...

Duquinha
	Que se o contasse, que se o contasse...

   No fim dessa estrofe, Lola, que esperava a deixa, estende-me a face, eu beijo-a e o 
fazendeiro, de p, na porta da saleta, com os olhos esbugalhados d este grito: Ah! Seu 
pelintreca!...
2 Literato  E tu?
Duquinha  Eu?... Eu... eu c estou. No sei o que mais aconteceu. Quando dei por mim 
estava dentro de um bonde eltrico, tocando a toda para a cidade!
1 Literato  Fizeste uma bonita figura, no h dvida! Podes limpar a mo  parede!
Duquinha  - Por qu?
1 Literato  Essa mulher no te perdoar nunca tal covardia!
2 Literato  Olha, o melhor que tens a fazer  no voltares l!
Duquinha  Ah! Meu amigo! Isso  bom de dizer, mas eu estou apaixonado...
2 Literato  Tu ests mas  fazendo asneiras! Onde vais tu buscar dinheiro para essas 
loucuras?
Duquinha  Mame tem me dado algum.. mas confesso que contra algumas dvidas, e no 
pequenas.  Ora adeus! No pensemos em coisas tristes, e vamos tomar alguma 
coisa alegre!
Os Dois  Vamos l!

(Afastam-se pela direita, cumprimentando Mercedes, Dolores e Blanchette, que entram por 
esse lado e se encontram com Lola, que entra da esquerda, muito nervosa e 
agitada. Figueiredo entra da direita, observa as cocotes, pra, e, colocado por trs, 
ouve tudo quanto elas dizem.) 

- Cena III  
Lola, Mercedes, Dolores, Blanchette, Figueiredo,
            Pessoas do Povo, depois Duquinha
Lola  Ah! venham c. Estou aflitssima. No calculam vocs que srie de desgraas!
As Outras  Que foi? Que foi?

					Lola
				          Rond
			Com o Duquinha a pouco eu estava
			Na saleta a conversar, 
 			E o Eusbio ressonava
			L na sala de jantar.
			O Duquinha uns versos lia,
			Mas no lia sem parar,
			Que a leitura interrompia
			Para uns beijos me furtar;
			Mas ao quarto ou quinto beijo,
			Sem se fazer anunciar, 
			Entra o Eusbio, e o poeta vejo
			Dar um grito e pr-se a andar!
			Pretendi novos inganos,
			Novas tricas inventar,
			Mas o Eusbio ps-se a panos:
			No me quis acreditar!
			Vendo a sorte assim fugir-me,
			Vendo o Eusbio se escapar,
			Fui ao quarto pra vestir-me
			E sair para o apanhar.
			Mas no quarto vi, de chofre,
			- Stive quase a desmaiar! -
			Vi as portas do meu cofre
			Abertas de par em par!
			O ladro foi o cocheiro!
			Nada ali me quis deixar!
			Levou jias e dinheiro!
			Que nem posso avaliar!

Blanchette  O cofre aberto!
Dolores  Jias e dinheiro!
Mercedes  O cocheiro!
Lola  Sim, o cocheiro, o Loureno, que desapareceu!
Blanchette  Mas como soubeste que foi ele.
Lola  Por esta carta, a nica coisa que encontrei no cofre! Ainda por cima escarneceu de 
mim! (Tem tirado a carta da algibeira.)
Mercedes  Deixa ver.
Lola  Depois! Agora vamos  polcia.No!  polcia no! 
As Trs  Por qu?
Lola  No convm. Logo sabero por qu. Vamos a um advogado! (Julga guardar a 
carta, mas est to nervosa que deixa-a cair.) Vamos!
As Trs  Vamos! ( Vo saindo e encontram com Duquinha.) 
Duquinha  Lola!
Lola (Dando-lhe um empurro.)  V para o diabo!
As Trs  V para o diabo! (Saem as cocotes. Figueiredo disfara e apanha a carta que 
	Lola deixou cair.) 
Duquinha (Consigo.)  Estou desmoralizado! Ela no me perdoa o ter sado, deixando-a 
entregue  fria do fazendeiro! Sou um desgraado! Que hei de fazer?... Vou 
desabafar em verso... No! Vou tomar uma bebedeira!...(Sai.) 


- Cena IV  
Figueiredo, Pessoas do Povo
Figueiredo  Ora aqui est como uma pessoa, sem querer, vem ao conhecimento de tanta 
coisa! Vejamos o que o cocheiro lhe deixou escrito. (Pe a luneta e l.)- Lola.  Eu 
sou um pouco mais artista que tu. Saio da tua casa sem me despedir de ti, mas levo, 
como recordao da tua pessoa, as jias e o dinheiro que pude apanhar no teu cofre. 
Cala-te; se fazes escndalo, ficas de mal partido, porque eu te digo: 1, que de 
combinao, representamos uma comdia pra extorquir dinheiro ao Eusbio; 2, que 
induziste um filho-famlia a contrair dvidas para presentear-te com jias; 3, que 
nunca foste espanhola, e sim ilhoa; 4, que foste a amante do teu ex-cocheiro  
Loureno. Sim, senhor,  de muita fora a tal senhora Dona Lola!... No h, juro 
que no h mulata capaz de tanta pouca vergonha! (Sai.) 


- Cena V  
Gouveia, Pessoas do Povo, depois Pinheiro

(Gouveia traz as botas rotas, a barba por fazer, um aspecto geral de misria e desnimo.) 

Gouveia  Ningum, que me visse ainda h to pouco tempo to cheio de jias, no 
acreditar que no tenho dinheiro nem crdito para comprar um par de sapatos! H 
oito dias no vou  casa de minha noiva, porque tenho vergonha de lhe aparecer 
neste estado!
Pinheiro (Aparecendo.)  Oh! Gouveia! Como vai isso?
Gouveia  Mal, meu amigo, muito mal...
Pinheiro  Mas que quer isto dizer? No me pareces o mesmo! Tens a barba crescida, a 
roupa no fio... Desapareceu do teu dedo aquele esplndido e escandaloso farol, e 
tens uma botas que riem da tua esbodegao!
Gouveia  Fala  vontade. Eu mereo os teus remoques.
Pinheiro  E dizer que j me quiseste pagar, com juros de cento por cento, dez mil-ris que 
eu te havia emprestado!
Gouveia  Por sinal, que disseste, creio, que esses dez mil-ris ficavam ao meu dispor.
Pinheiro  E ficaram. (Tirando dinheiro do bolso.) C esto eles. Mas, como um par de 
botinas no se compra com dez mil-ris, aqui tens vinte... sem juros. Pagars 
quando quiseres. 
Gouveia  Obrigado, Pinheiro; bem se v que tens uma alma grande e nunca jogaste a 
roleta.
Pinheiro  Nada!  Sempre achei que o jogo, seja ele qual for, no leva ningum para 
diante.  Adeus, Gouveia... aparece! Agora, que ests pobre, isso no te ser 
difcil!... (Sai.) 


- Cena VI  
                                                       Gouveia, depois Eusbio
Gouveia  Como este tipo faz pagar caro os seus vinte mil-ris! Ah! Ele apanhou-me 
descalo! Enfim vamos comprar os sapatos! (Vai saindo e encontra-se com Eusbio, 
que entra cabisbaixo.) Oh! O Sr. Eusbio!...
Eusbio  Ora! Inda bem que le encontro!...
Gouveia (  parte.)  Naturalmente j voltou  casa... Como est sentido! ... Vai falar-me 
	de Quinota!...  
Eusbio -  Hoje de menh encontrei ela beijando um mocinho!
Gouveia  Hein?
Eusbio   levada do diabo! No sei como o sinh pde gosta dela!
Gouveia   Ora essa! A ponto de querer casar-me!
Eusbio  Era uma burrice!
Gouveia  Custa-me crer que ela...
Eusbio  Pois creia! Beijando um mocinho, um pelintreca, seu Gouveia!... Veja o sinh 
de que serviu gasta tanto dinheiro com ela!...
Gouveia  Sim, o senhor educou-a bem... ensinou-lhe muita coisa...
Eusbio (Vivamente.)  No, sinh! No ensinei nada!... Ela j sabia tudo! O sinh, sim! Se 
arrugam ensinou foi o sinh e no eu! Beijando um pelintreca, seu Gouveia!... 
Gouveia  Dona Fortunata no viu nada?
Eusbio  Dona Fortunata?... U!... Como  que havera de v?... Olhe, eu l no vorto!
Gouveia  No volta! Ora esta!
Eusbio  No quero mais sab dela.
Gouveia   Deve lembrar-se que  pai!
Eusbio  Por isso mesmo! Ah! Seu Gouveia, se arrependimento sarasse... Bem; o sinh 
vai me apadrinha, como noutro tempo se fazia cm preto fugido... No me atrevo a 
entr In casa sozinho depois de tantos dias de ofensa!
Gouveia  Em casa? Pois o senhor no me acaba de dizer que l no volta porque Dona 
Quinota...
Eusbio  Quem le falou de Quinota?
Gouveia   Quem foi ento que o senhor encontrou aos beijos com o pelintreca?  Ah, 
agora percebo! A Lola!...
Eusbio  Pois quem havera de s?
Gouveia  E eu supus... Onde tinha a cabea? ... Perdoa, Quinota, perdoa! Vamos, Senhor 
Eusbio... Eu apadrinharei, mas com uma condio: o senhor por sua vez me h de 
apadrinhar a mim, porque eu tambm no apareo  minha noiva h muitos dias!
Eusbio  Por qu?
Gouveia  Em caminho tudo lhe direi. ( parte.)  Aceito o conselho de Quinota: vou 
abrir-me. (Alto.) Tenho ainda que comprar um par de sapatos e fazer a barba.
Eusbio  Vamo, seu Gouveia! (Saem. Ao mesmo tempo aparece Loureno perseguido por 
Lola, Mercedes, Dolores e Blanchette.) 


- Cena VIII  
                      Loureno, Lola, Mercedes, Dolores, Blanchette, Pessoas do Povo
Lola e os Outros  Pega ladro! (Loureno  agarrado por pessoas do povo e dois 
soldados que aparecem. Grande vozeria e confuso. Apitos. Mutao.) 


					Quadro XI
				( O sto ocupado pela famlia de Eusbio.) 

- Cena I  
                                             Juquinha, depois Fortunata, depois Quinota
Juquinha (Entrando a correr da esquerda.)  Mame! Mame!
Fortunata (Entrando da direita.)  Que , menino?
Juquinha  Papai t i!
Fortunata  T i?
Juquinha  Eu encontrei ele ali no canto e ele me disse que viesse v se vamec tava 
	zangada, que se tivesse, ele no entrava.
Fortunata  Oh! Aquele home, aquele home o que merecia! Vai, vai diz a ele que no t 
zangada!
Juquinha  Seu Gouveia t junto co ele.
Fortunata  Bem! Venha todos dois. (Juca sai correndo.)  Quinota, Quinota!
A voz de Quinota  Senhora?
Fortunata  Vem c, minha fia.  Eu no ganho nada me consumindo. J tou via; no 
quero me amofin. (Entra Quinota.)  Quinota, teu pai vem a... mas o que est 
arresolvido est: amenh de menh vamo embora.
Quinota  E seu Gouveia?
Fortunata  Tambm vem a.
Quinota (Contente.)  Ah!
Fortunata  No quero mais fic numa terra onde os marido passa dias e noite fora de 
casa...

- Cena II  
Fortunata, Quinota, Juquinha, Eusbio, depois Gouveia
Juquinha (Entrando.)  T i papai!
Eusbio (Da porta.)  Posso entr? No temo briga?
Quinota  Estando eu aqui, no h disso!
Fortunata  Sim, minha fia, tu  o anjo da paz.
Quinota  (Tomando o pai pela mo.)  Venha c. (Tomando Fortunata pela mo.) Vamos! 
Abracem-se!...
Fortunata (Abraando-o .)  Diabo de home, vio sem juzo!
Eusbio  Foi uma maluquice que me deu! Raie, raie, Dona Fortunata!
Fortunata  Pai de fia casadeira!
Eusbio  T bom! T bom! Juro que nunca mais! Mas deixe le diz...
Fortunata  No! no diga nada! No se defenda!  mi que as coisa fique como est. 
Juquinha  Seu Gouveia t no corred.
Quinota  Ah! (Vai buscar Gouveia pela mo. Gouveia entra manquejando.)
Eusbio  Assim  que o sinh me apadrinhou?
Gouveia  Deixe-me! Estes sapatos novos fazem-me ver estrelas.
Fortunata  Seu Gouveia, le participo que amenh de menh tamo de viagem.
Eusbio  J conversei co ele.
Gouveia (A Quinota.)  Eu abri-me.
Eusbio  Ele vai coa gente. No tem que faz aqui. T na pindaba, mas  o memo. Casa 
com Quinota e fica sendo meu scio na fazenda.
Quinota  Ah! Papai! Quanto lhe agradeo!
Juquinha  A Benvinda t i.
Todos  A Benvinda!
Fortunata  No quero v ela! No quero v ela!

(Quinota vai buscar Benvinda, que entra a chorar, vestida como no 1 quadro, e ajoelha-se 
aos ps de Fortunata.. )


- Cena III  
Os mesmos, Benvinda

Benvinda  T muito arrependida! No valeu a pena!
Fortunata  Rua, sua desavergonhada!
Eusbio  Tenha pena da mulata.
Fortunata  Rua!
Quinota  Mame, lembre-se de que eu mamei o mesmo leite que ela.
Fortunata  Este diabo no tem descurpa! Rua!
Gouveia  No seja m, Dona Fortunata. Ela tambm apanhou o micrbio da pndega.
Fortunata  Pois bem, mas se no se comport dereto... (Benvinda vai para junto de 
Juquinha.) 
Eusbio (Baixo  Fortunata.)  Ela h de cas com seu Borge... Eu dou o dote... 
Fortunata  Mas seu Borge...
Eusbio  Quem no sabe  como quem no v. (Alto.) A vida da capit no se fez para 
ns... E que tem isso?...  na roa,  no campo,  no serto,  na lavoura que est a 
vida e o progresso da nossa querida ptria. (Mutao.) 






					Quadro XII
				(Apoteose  vida rural.)

Toda a msica desta pea  composta pelo Senhor Nicolino Milano,  exceo das coplas 
do Ato I - quadro I, cena I e quadro III,  cena III , do coro do quadro III, cena I, do duetino 
do quadro II,  cena IV e do quarteto do quadro III, cena IV que foram compostas pelo 
Senhor Doutor Pacheco, e da valsa do ato I, cena IV, composio do Senhor Lus Moreira. 

 


















